Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 15/10/2018
Segundo dados do Ministério da Saúde, contabilizados por meio do Sistema Nacional de Transplantes, o Brasil é o segundo maior transplantador de órgãos do mundo, com 95% dos procedimentos financiados pelo Sistema Único de Saúde (SUS); todavia, em 2017 haviam mais de 44 mil pessoas nas filas em espera da doação. A priori, pode-se doar órgãos e tecidos de indivíduos vivos ou com morte encefálica comprovada - situação em que ocorre interrupção irreversível das atividades cerebrais. Consoante a isso, os que se encontram sob a última situação descrita, somente podem ser efetivos doadores com a livre autorização dos familiares, que podem negar a concessão mesmo na afirmação positiva do indivíduo durante sua vida. Doravante, o principal desafio para o aumento na adesão à doação de órgãos e tecidos é a conscientização dos familiares quanto a importância do ato.
Não obstante, as principais causas da recusa da doação pelos familiares residem na incompreensão do diagnóstico de morte encefálica, visto que alguns indivíduos prendem-se à crença da reversibilidade do quadro clínico do paciente, na doutrina religiosa praticada, apesar da maioria das religiões não se posicionarem contrárias à doação, na não aceitação da manipulação do corpo e na inadequação das informações prestadas durante a abordagem médica e multidisciplinar. Outrossim, a ausência de programas educativos permanentes voltados à população e o conflito entre opiniões dos entes familiares, são motivos que se somam à recusa.
A posteriori, a formação continuada de profissionais e estudante na área da saúde são fatores que aumentam a aceitação da doação, pois é essencial o esclarecimento dos responsáveis pelo indivíduo quanto aos métodos e procedimentos elencados, haja vista que a retirada dos órgãos ocorre por meio de uma cirurgia tradicional e, ao fim do procedimento, o corpo é reconstituído para ser velado, enterrado ou cremado normalmente. Além disso, o estímulo para a doação de sangue e medula óssea são caminhos que confluem os indivíduos à autorização de uma possível doação de órgãos, a medida que os conscientiza de seu poder em multiplicar a vida - 1 doador de órgãos pode salvar mais de 20 pessoas, já 1 doador de sangue pode salvar até 4 vidas.
Em síntese, os familiares devem ser inseridos em todo o processo de acompanhamento médico, de modo que, no caso de óbito do paciente, tenham tempo para compreender e lidar com a situação. Portanto, o Ministério da Saúde deve investir na formação de equipes capacitadas para esses eventos, bem como na veiculação de informações nos meios de comunicação em massa - televisão, rádio, jornais, revistas e redes sociais - pois esses possuem enorme capacidade de assimilação dos espectadores. Tais medidas são essenciais para o entendimento de que doar é dar continuidade à vida.