Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 29/09/2018

Conforme elucida o escritor tcheco Franz Kafka, “a solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana”. Nessa perspectiva, entende-se que a preocupação mútua com os interesses alheios deve ser cultivada pela sociedade como um todo. No entanto, a enorme lista de espera para transplantes de órgãos, no que tange ao Brasil, revela que o sentimento solidário ainda é uma utopia, dado o contexto de individualidade que permeia a nação canarinha. Nesse sentido,a falta de elucidação social e o retrógrado sistema de saúde pública, perpetuam o problema no meio coletivo.

É relevante destacar, previamente, o posicionamento adotado pelo escritor alemão Johann Goethe, o qual afirma que “não há nada mais assustador que a ignorância em ação”. Nesse viés, a falta de informações precisas aos familiares sobre o que vem a ser a morte encefálica, aliada à dificuldade dos médicos em estabelecer uma relação confiável com os familiares dos doadores, geram uma visão distorcida da população em relação ao tema. Outrossim, mitos e crendices populares, quando não elucidados pela comunidade de saúde hospitalar, causam diminuição no índice de doadores de órgãos e aumento das filas de espera. Na Idade Média, por exemplo, intervenções médicas no corpo humano eram proibidas pelo clero local, corroborando o prejuízo causado na sociedade pela ignorância mental.

Convém acrescentar ao exposto a ideia do filósofo contratualista Thomas Hobbes, pois segundo ele o Estado é o principal responsável pela coesão social de um povo. Nesse aspecto, verifica-se que a administração estatal do Brasil tem falhado no que tange a estabilidade do sistema de saúde  pública. Diante desse entrave, o inchaço populacional nos grandes hospitais regionais, causados pela  falta de recursos para a construção de novas unidades, suscita morosidade no diagnóstico precoce de pa- cientes com morte encefálica, sendo estes os principais doadores de órgãos no Brasil. Dados  da ABTO ressaltam o entrave, pois  2,3 mil pessoas morreram à espera de um transplante de órgão em 2015.

Portanto, fica claro que a doação de órgãos deve ser estimulada, a fim de estimular a solidariedade  nos brasileiros. Primordialmente, o Ministério da Educação deve promover mensalmente uma reunião entre pais e alunos do Ensino Médio, com o intuito de conscientizar as famílias sobre a importância da doação de órgãos para a preservação de outras vidas. Com subsídios de empresas privadas, em troca de isenções e benefícios fiscais, deve haver a contratação de médicos e psicólogos para desmistificar os mitos existentes sobre o assunto, além de incitar um sentimento solidário nos núcleos familiares brasileiros. Ademais, uma parte das arrecadações adquiridas deve ser destinada, pelo Ministério da Saúde, à criação de vagas de residência em hospitais públicos, a fim de aumentar o número de médicos disponíveis e desfazer a morosidade existente no diagnóstico das mortes encefálicas.