Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 06/10/2018
Em 1950, Henriqueta Lacks, contrariando os costumes e os dogmas da época, teve suas células doadas para a realização de pesquisas e de transfusões. Pelo fato de não possuírem uma região genética que codifica a redução dos telômeros, responsáveis pelo envelhecimento celular, suas células, ainda hoje, salvam a vida de milhares de pessoas. Todavia, na realidade brasileira, embora se observe um gradual aumento na taxa de doação de órgãos e de tecidos, constata-se que esta ainda é baixa, seja pelos empecilhos culturais, seja pela má informação da população quanto à necessidade da doação, tornando-se indispensável a tomada de medidas que resolvam a questão.
Primordialmente, é indubitável que os aspectos culturais e religiosos ligados à doação estejam entre as causas do problema. Isso ocorre, principalmente, devido à influência de mitos e superstições ligados à doação, que embora sejam negados, muitas vezes, pelas próprias religiões, como Islamismo e o Cristianismo, ainda exercem grande influência sobre o modo de pensar social. Esse problema assume contornos específicos no Brasil, onde, apesar do aumento da doação de órgãos -16,2 doações por milhão, conforme Associação Brasileira de Transplante de Órgão (ABTO) -, percebe-se que a influência da religião é o principal inibidor da doação, sobretudo, pelos fortes resquícios da colonização.
Outrossim, é incontrovertível que a problemática está longe de ser resolvida. Além da influência cultural e religiosa, é possível observar que a pouca informação da população tangente à doação de órgãos contribui, substancialmente, para a ainda baixa taxa desta no Brasil. Isso ocorre mormente, pela pouca preparação das famílias pelos médicos, na maioria das vezes, instruindo-as de maneira imediata e pouco detalhada sobre a doação. Conseguintemente, isso justifica o fato de, no Brasil, 43 % das eventuais doações não ocorrem pelo pouco conhecimento sobre esta e pela falta de tempo dado às famílias, perpetuando-se o empecilho no cerne da questão.
Destarte, é evidente que medidas são necessárias para mitigar o impasse. Logo, com o intuito de aumentar, factualmente, a doação de órgãos e tecidos, urge que a ABTO, por meio de uma ação conjunta com o Ministério da Saúde, divulgue campanhas pelas mídias sociais. Estas devem ser feitas por intermédio de dados, de pesquisas, de depoimentos de doadores e de pessoas que receberam órgãos, garantindo a informação da população sobre a importância do transplante de órgãos.