Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 02/10/2018

Em 2017, a Lei dos Transplantes completou 20 anos e teve uma alteração significante: a importância da família na decisão da doação de órgãos. O novo texto retirou a “doação presumida” do decreto anterior, o que reforçou o papel dos parentes próximos na autorização. Nesse sentido, embora o Governo tenha buscado modernizar tal dispositivo e ampliar as ações solidárias, na prática esse objetivo ainda enfrenta muitas dificuldades, seja pela lenta mudança de mentalidade social, seja devido à carência de divulgações informacionais sobre o assunto.

Primeiramente, cabe ressaltar que, hodiernamente, de acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, 32 mil pacientes estão na lista de espera para receber um órgão. Sob essa ótica, a ideia do sociólogo Émile Durkheim reflete tal contexto social, uma vez que a sociedade pode ser relacionada com um organismo, o qual cada membro desempenha funções interdependentes que interagem entre si para o bom funcionamento do mesmo. Porém, essa máxima de dependência social ainda não faz parte do pensamento da maioria da população, pois o fato de a morte encefálica significar que outros elementos do organismo possam estar funcionando, os familiares possuem uma crença de esperança de vida, o que dificulta a doação dos órgãos do indivíduo considerado morto cientificamente.

Ademais, associado ao pensamento social, a pífia veiculação de informações a respeito desse fato gera um sentimento de dúvida por parte dos familiares dos mortos e dos vivos que optam por doar órgãos. Tendo em vista que muitos traficantes lucram com a venda ilegal de partes do corpo humano, os indivíduos que querem realizar tal ato solidário ficam céticos quando falam desse assunto, o que contribui para o aumento da espera dos pacientes necessitados. Dessarte, o Governo tem buscado incentivar tal prática solidária por meio do dia nacional da doação de órgãos, no entanto é mister a divulgação de mais conteúdos sobre essa questão.

Portanto, a fim de que a população mude o raciocínio sobre essa temática, o Ministério da Educação deve criar, mediante alteração na base curricular nacional, um estudo, desde o ensino primário, a respeito da doação de órgãos, para que os professores mostrem aos alunos que, por meio de 1 indivíduo, segundo o Conselho Federal de Medicina, até 20 vidas podem ser salvas. Dessa forma, os sujeitos iriam crescer com essa ideia solidária, corroborando a máxima de Durkheim. Além disso, as prefeituras devem fornecer lugares públicos às organizações não governamentais realizarem, por intermédio de palestras feitas por especialistas, campanhas de engajamento, de modo a objetivar um diálogo, capaz de fazer com que a sociedade tire dúvidas a respeito de tal procedimento, para que assim os transplantes sejam realizados sem quaisquer receios dos familiares.