Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 03/10/2018
Orgulho Policarpiano
Policarpo Quaresma — personagem da obra de Lima Barreto — era um homem extremamente fiel e adorador do Brasil, dessarte, de modo utópico, Quaresma idealizava um país isento de problemas sociais. Conquanto, parafraseando Drummond de Andrade, a construção civil brasileira encontra uma pedra no caminho às perspectivas de Policarpo. A exemplo disso, os assíduos desafios enfrentados na doação de órgãos no Brasil, figurando a imprescindibilidade de intervenções que considerem aspectos sociais e políticos.
Incontestavelmente, sejam por questões religiosas, culturais ou sociais, os desafios da doação de órgãos são iniciados ainda no meio familiar. Desse modo, embora potenciais doadores notifiquem seus familiares previamente, após o falecimentos dos indivíduos,, os responsáveis pela estrutura física dos mesmos se recusam a autorizar a concessão dos órgãos. Em contrapartida, é imprescindível destacar que a temática é escassamente debatida entre os cidadãos, favorecendo, sobretudo, a criação de preconceitos e a pouquidade do conhecimento a respeito da importância da doação de órgãos na manutenção da vida. Partindo desse pressuposto, a incorporação do assunto na sociedade canarinha é uma das mais poderosas ações à superação desse dilema no Brasil.
Não obstante, ainda que segundo dados do Ministério da Saúde existam mais de mil equipes preparadas para realizarem cirurgias de transferência no país, o maior número de grupos estão concentrados no Sul e Sudeste, tornando a quantidade dessas corporações exíguas nas demais regiões brasileiras. Sob tal ótica, de acordo com Immanuel Kant em sua teoria do Imperativo Categórico, os indivíduos deveriam ser tratados, não como coisas que possuem valor, mas como pessoas que têm dignidade. Em analogia, observa-se que que sociedade brasiliense, tacitamente, tem ido de encontro ao postulado filosófico, uma vez que a má distribuição das equipes que realizam transplantes no Brasil, funciona como forte base da perpetuação desse dilema no país.
Ainda que no caminho ao combate dos desafios da doação de órgãos exista uma pedra, nele também existe a esperança de transformação. Cabe ao Ministério da Saúde, em parceria com as escolas e as universidades, criarem palestras periódicas a respeito do assunto, visando informar aos futuros cidadãos sobre a importância do transplante de órgãos, diminuindo, assim, o preconceito e a desinformação acerca da temática. Ademais, cabe ao Governo Federal, efetuar concursos públicos com vagas para equipes de transplantes por todas as regiões do Brasil, a fim de redistribuir os profissionais da área cirúrgica. Assim, poder-se-á criar um ideal de que Policarpo Quaresma pudesse se orgulhar.