Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 02/10/2018
Se sensibilidade e humanitarismo devem ser as portas para distribuir olhares para o mundo, nas lições de Nice de Silveira, talvez falta um quê dessa sensibilidade para analisar os desafios para o aumento do número de transplantes de órgãos no Brasil. Nos desdobramentos de sua evolução, merece atenção a insuficiência de debate dessa temática no cotidiano das pessoas, evidenciada pelo baixo número de campanhas e propagandas. Decorrente dessa realidade, cabe o olhar para a carência de altruísmo entre os indivíduos e a falta de informação.
De acordo com o sociólogo Zygmunt Bauman, as sociedades pós-modernas têm como principal tendência o crescimento dos pensamentos individualistas em detrimento dos atos solidários entre as pessoas. Nesse viés, muitas famílias, apesar de conscientes da importância da doação de órgãos, não apoiam quando se trata de seus entes queridos. Tal atitude é decorrente, muitas vezes, da desconfiança acerca de corrupção e comércio ilegal de órgãos e também devido a crenças religiosas, embora a maioria das religiões não seja contra essa prática.
Por outro lado, há também casos em que as famílias não são devidamente informadas sobre o assunto, o que as impede de concordar com a doação, pois como diz o escritor Gilberto Dimenstein, ‘’só existe opção quando há informação’’. O fato de a morte ser tratada como tabu, acaba por proporcionar um âmbito favorável à má propagação de informações sobre casos médicos irreversíveis como a morte encefálica. Como consequência, há um aumento da fila de espera para transplantes, além do crescimento do número de óbitos.
Portanto, é imprescindível a articulação de uma medida em torno dos desafios para o aumento do número de transplantes de órgãos no Brasil. Em termos práticos, é preciso formar coordenações especializadas em transplante com ênfase em comunicação, visando o esclarecimento de dúvidas, além de melhorar a infraestrutura dos hospitais e o acolhimento do SUS. Seus agentes devem ser o Ministério da saúde em parceria com os gestores dos hospitais. Dessa forma, será possível minimizar gradativamente esse fato social no Brasil.