Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 08/10/2018

Em 1964, o Brasil realizou o primeiro transplante de um órgão humano. Desde então, o país avançou muito nas técnicas cirúrgicas, possuindo um dos maiores programas públicos de transplantes do mundo - o SNT -. Em contrapartida, mais de 30 mil pessoas aguardam na fila de espera, e muitas acabam morrendo sem receber a doação, pois, na maioria das vezes, o transplante é a sua única chance de sobrevivência. Dessa forma, fica claro que, embora o número de doações tenha crescido, o Brasil ainda precisa desfazer o contraste gerado por conta do tabu acerca desse assunto; como também melhorar a infraestrutura do sistema, que vem sendo um entrave na evolução das doações.

Em primeiro lugar, observa-se que um dos principais entraves que levam à precariedade nas filas de espera é a enorme recusa das famílias em doarem os órgãos dos seus parentes falecidos. Segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), 47% das famílias negam a doação por alegarem que não sabiam se esse era o desejo de quem morreu, logo, vê-se a evidente necessidade de o tema ser discutido em família. Ocasionalmente, o medo de ceder os órgãos e tecidos advém da desinformação das pessoas e da pouca credibilidade dada ao sistema de saúde brasileiro. Nesse sentido, tem-se uma situação preocupante, visto que uma única pessoa pode salvar até 8 vidas.

Ademais, um outro obstáculo reside na má distribuição de infraestruturas e equipes especializadas. O presidente da ABTO, Lúcio Pacheco, afirmou que somente as regiões Sul e Sudeste, possuem maior concentração de equipes qualificadas, enquanto as demais carecem de hospitais e médicos especializados. Além disso, a falta de transportes aéreos (principal veículo para a locomoção dos órgãos) torna-se uma grande dificuldade, visto que somente alguns estados possuem aeronaves dedicadas aos transplantes, enquanto outros dependem de companhias privadas, e só recentemente puderam contar com a Força Aérea Brasileira (FAB) para realizarem a transferência dos órgãos.

Em síntese, é essencial que o Ministério Público, por intermédio do Centro de Apoio Operacional de Defesa dos Direitos Humanos (CAODH), promova campanhas ao longo de todo o ano, em prol da conscientização acerca da doação de órgãos. Nesse sentido, as campanhas podem ser por meio das mídias, em geral, como também em consonância com as prefeituras locais, podendo, assim, oferecer palestras ou rodas de conversas nas escolas, explicando a relevância das doações, para que os próprios estudantes informem às famílias sobre o desejo de serem doadores. Além disso, o poder público deve proporcionar mais verbas para a melhoria das infraestruturas do sistema de doações. Bem como afirmou o escritor Franz Kafka: “A solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana. ”