Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 18/10/2018
No que diz respeito à doação de órgãos, o Brasil é considerado referência e possui o maior sistema público de transplantes do mundo, além de ter tido uma alta de aproximadamente 16% na taxa de doadores, em 2017, segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). No entanto, apesar desse índice crescente, o número de pacientes que ainda aguardam o procedimento é muito superior comparado ao número de órgãos disponíveis para doação, visto que, atualmente, há cerca de 35 mil pessoas à espera de um transplante. Assim, são necessárias medidas que sejam capazes de superar os obstáculos que impedem que ainda mais pacientes sejam salvos através desse procedimento cirúrgico.
Em primeiro plano, especialistas apontam que a falta de conscientização é um dos principais limitadores para o aumento da doação de órgãos no Brasil. Nesse aspecto, muitas pessoas não sabem que podem doar mesmo enquanto vivas, se saudáveis, como é o caso da doação de rins – órgão mais requisitado atualmente, segundo a ABTO. Além disso, muitos indivíduos ainda acreditam em mitos relacionados à doação, como afirmar que o processo cirúrgico causa deformações e altera a aparência na urna funerária. Desse modo, esses são assuntos que devem ser mais abordados, visto que a partir de um único doador com morte cerebral, cerca de 8 pessoas podem ser beneficiadas - com a retirada de órgãos, tecidos e até mesmo ossos.
Em segundo plano, outro fator limitante é a recusa das famílias em permitir a retirada de órgãos de parentes com morte encefálica - 42% delas não permitiram a doação, em 2017, de acordo com a ABTO, e isso se deve muito à falta de sensibilidade dos entrevistadores – pessoas designadas para discutir o assunto com os familiares, que muitas vezes fazem a abordagem de forma insensível, truculenta e impaciente, desrespeitando um momento de grande dor e não explicando, de forma clara e simples, o quão importante a doação pode ser para salvar outras vidas.
Fica evidente, portanto, a necessidade da ABTO, em conjunto com o Ministério da Saúde, realizar campanhas de orientação, através de redes sociais (a fim de atingir o maior número possível de jovens), propagandas televisivas, em horários de pico, e cartilhas, que desmitifiquem a doação de órgãos, explicitem a eficiência desse procedimento e a quantidade de pessoas que podem ter suas vidas renovadas, para que as filas de espera diminuam e ainda mais pessoas sejam salvas. Ademais, as secretarias de saúde estaduais devem promover cursos gratuitos de capacitação dos agentes que conversam com as famílias, quando a morte cerebral é confirmada, a fim de garantir que o processo seja explicado da forma mais clara e sensível possível.