Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 27/10/2018
Segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), foram realizados cerca de 27 mil transplantes em 2017, indicando que o país apresenta o melhor cenário dos últimos 20 anos. Apesar dessa melhora, o Brasil ainda não é suficiente na questão, uma vez que a oferta de órgãos, em relação à demanda, ainda é muito baixa. Essa escassez pode ser compreendida pela ausência de informações a respeito do processo de transplante e pela deficiência da infraestrutura do serviço público de saúde, corroborando a decisão dos familiares de não doar os órgãos do ente falecido.
É relevante abordar, primeiramente, que, segundo a ABTO, a cada 100 famílias atualmente, 43 se recusam a fazer a doação de órgãos dos indivíduos recém-falecidos. Essa recusa é influenciada pela falta de ciência a respeito de como o processo de transplante funciona, de quantas pessoas são beneficiadas pela doação e, principalmente, de como a morte encefálica é irreversível. Muitos acreditam que a morte só pode ser diagnosticada quando o coração para de funcionar, contudo, na maior parte das vezes que o indivíduo tem seu funcionamento cardíaco interrompido, o processo de transplante já não é mais viável, uma vez que os órgãos não estão mais em boas condições. Desse modo, a carência de informações induz o indivíduo a não compreender a importância da doação de órgãos.
A recusa familiar em doar órgãos, entretanto, não é somente influenciada por essa falta de informações, mas também pela precaridade da infraestrutura do sistema público de saúde. A desorganização e tumulto na entrada dos hospitais públicos, o tratamento desumano dos médicos com seus pacientes e a falta de aparelhos e quartos para abrigar os enfermos levam os indivíduos a perderem confiança no sistema público e, portanto, recusarem-se a doar os órgãos a esses lugares que se mostram incapazes de exercerem suas funções adequadamente. Assim, a ineficiência do sistema público de saúde está ligada diretamente à recusa da família em doar órgãos.
A doação de órgãos no Brasil, portanto, apesar de ter apresentado um avanço nos últimos anos, ainda apresenta uma série de obstáculos vinculados à falta de informação sobre o processo de transplante e à deficiência do sistema público de saúde. Para solucionar a problemática, cabe ao Estado criar medidas que desenvolvam as infraestruturas dos hospitais públicos. Para isso, o Estado precisa investir mais em políticas que busquem melhorar a qualidade do sistema público de saúde, ampliando os hospitais e adquirindo melhores aparelhos, além de melhorar o ensino de formação dos profissionais da saúde, para que estes possam atender os seus pacientes de uma maneira mais humanitária. O objetivo dessas medidas é desenvolver a confiança das pessoas no sistema público de saúde, para que, assim, elas possam assentir a doação de órgãos dos seus entes falecidos.