Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 31/10/2018

Em 2016, um decreto assinado pelo presidente Michel Temer determinou a disponibilidade de aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) para o transporte de orgãos em todo o território nacional, garantindo que mais vidas fossem salvas. A medida é mais uma iniciativa que ajudou a fazer do Brasil referência mundial no contexto de doação de órgãos. Entretanto, considerado o tamanho da população e o número de indivíduos em casos graves, os avanços ainda não são suficientes para suprir a demanda

A princípio, o conceito de morte encefálica ainda é polêmico, além de existirem muitos que ainda não o compreendem. Para o filósofo Hans Jonas, seria eticamente incorreto usar a ideia de morte cerebral para extrair órgãos de um corpo que ainda funciona por meio de aparelhos. Entretanto, os avanços na medicina comprovam que este estado demonstra completa e irreversível parada das funções do cérebro e não há chance de recuperação. Nesta situação, cabe à família do falecido decidir pela doação ou não. Como é um momento difícil para todos, se não forem abordados por médicos que saibam respeitar o luto e esclarecer as dúvidas sobre o processo, dificilmente aceitarão.

Por outro lado, mesmo quando a escolha pelo transplante, podem haver obstáculos. Primeiramente, a demora dos parentes na decisão pode acabar comprometendo a vida de casos médicos urgentes, em que o tempo é crucial. Na grande parte das vezes, essa lentidão é causada pelo desconhecimento das famílias acerca das vontades do potencial doador, comprovando a importância de que, embora delicado, o assunto seja debatido previamente. Além disso, a compatibilidade também é uma barreira para tirar as pessoas da fila de espera por um transplante. Não basta que seja encontrado um doador, é necessária também a garantia de que não haverá rejeição durante o procedimento.

Evidencia-se, portanto, que a sobrevivência de muitos esbarra na rejeição das famílias e nas dificuldades para se efetivar a doação. Nesse sentido, cabe ao Ministério da Educação por meio da inclusão de aulas específicas nos cursos de medicina sobre a abordagem dos familiares em situações de dificuldade, a formação de profissionais que saibam explicar o diagnóstico de maneira compreensível, mas também respeitosa. Ademais, faz-se necessário que o Ministério da Saúde em parceria com o Governo Federal torne a decisão dos parentes um pouco mais fácil, por meio da criação de um aplicativo que informe assim que alguém decidir se tornar um futuro doador, já que é uma conversa regularmente evitada. Só assim, seria possível que mais vezes a angústia de uma perda possa ser substituída pela satisfação em contribuir para a esperança de outrém.