Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 31/10/2018
No ano de 1954, na cidade de Boston, o médico Joseph Murray realizou o primeiro transplante vital bem-sucedido e deu início aos hodiernos processos de doação de órgãos. Contudo, a permanência de uma cultura que negligencia a importância desse procedimento tem impedido uma grande parcela de brasileiros de usufruírem da conquista de Murray. Todavia, não é razoável que o acesso à saúde, um dos direitos da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, continue sendo negado aos indivíduos.
Sob um primeiro enfoque, é essencial salientar que o crescimento da doação de órgãos encontra obstáculos em uma sociedade amplamente marcada pelo individualismo. A esse respeito, o sociólogo Zygmunt Bauman afirmava, em sua obra “Modernidade Líquida, que a maior características das relações interpessoais na contemporaneidade é o individualismo e o descaso com os valores comunitários. Com isso, embora o número de transferências viscerais tenha aumentado no Brasil, ele não alcança nem a metade do valor obtido na Espanha, país líder nesse quesito.
De outra parte, é perceptível a ineficaz atuação dos meios acadêmicos na consolidação de uma cultura voltada para a doação de órgãos. Segundo o filósofo Kant, o homem é um produto da educação que recebe. Nesse sentido, é papel das instituições escolares desconstruir as concepções negativa da população acerca das transferências viscerais. Dessa forma, leis como a de 1991 que obrigava a doação em caso de morte encefálica não mais seriam vistas com ojeriza pelo brasileiro.
Por conseguinte, é notório que as conquistas do médico americano devem ser aplicadas em maior quantidade no Brasil. Torna-se imperativo que o Estado, na figura do Ministério da Saúde, realize uma campanha em diversos flancos. Para isso, ele deve instituir a obrigatoriedade de peças publicitárias que incentivem a doação de órgãos em horário nobre na televisão. Além disso, esse Ministério deve atuar nas escolas, distribuindo panfletos informativos que suscitem o debate nas famílias do país. Com essas duas medidas, espera-se desconstruir o tabu acerca da doação visceral e mostrar que os entes familiares poderão, de certa forma, continuar vivos em outros indivíduos