Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 02/11/2018

De acordo com Betinho, ativista e sociólogo brasileiro, só haverá um desenvolvimento humano na sociedade civil, se ela afirmar cinco pontos fundamentais: a liberdade, a igualdade, a solidariedade, a participação e a diversidade. Contudo, ainda há, no Brasil, uma deficiência quanto a promoção do caráter solidário, o qual se relaciona, entre outras atitudes, com a doação de órgãos no país. Nessa óptica, observa-se a recusa familiar, baseada muitas vezes em crenças, que atrelada a carência de instruções quanto ao procedimento, permanecem como uma barreira que reflete nos níveis de doadores nacionais.

Em primeira análise, denota-se a matriz familiar brasileira. Sob esse viés, o conservadorismo, correlacionado às distintas manifestações sociorreligiosas, ainda mantém-se como uma característica presente no cotidiano social. Diante disso, por mais que vertentes religiosas, como o Cristianismo, Protestantismo e Judaísmo, declarem-se abertamente favoráveis ao gesto de doar órgãos, insiste no ideário nacional a mistificação de que essa atitude interfira de alguma forma na conduta espiritual do falecido. Esse aspecto tornou-se um tabu dificultante que interfere diretamente na vida de mais de 30 mil pacientes que aguardam na fila de transplante, de acordo com dados obtidos pelo G1.

Outrossim, a deficiência na disseminação de informações mostra-se como um empecilho para essa prática. Nesse sentido, para o filósofo prussiano, Immanuel Kant, “o homem é o que a educação faz dele”. Todavia, na perspectiva contemporânea, a humanidade é o que a tecnologia exerce sobre ela, o que enfatiza o poder persuasivo e incentivador que a modernização pode oferecer. Entretanto, instrumentos tecnológicos, que através da Revolução Industrial, ocorrida no século XVIII, fixaram-se no cotidiano do homem, infelizmente mostram-se como elementos em desuso no que se refere a promoção de campanhas que discutam a atitude donativa de órgãos no Brasil. Esse cenário revela-se na baixa aplicação de debates sobre o tema, promovidos em redes sociais.

Destarte, é notório que a quebra de esteriótipos, além da fomentação de divulgações virtuais, são elementos chaves para o incentivo à doação de órgãos. Portanto, cabe ao Governo Federal, aliado ao Ministério da Educação, promover nas mais diversas instituições do país, como escolas e igrejas, palestras elucidativas e materiais didáticos que objetivem desconstruir preconceitos acerca desse processo. Além disso, compete ao Ministério da saúde, unido ao Ministério Público, desenvolver campanhas e discussões, que sejam aplicadas em veículos cibernéticos como Instagram e Facebook, visando o incentivo à prática da doação. Dessa forma, a solidariedade e a empatia poderão ser realidades vigentes no Brasil.