Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 09/12/2018
Em 1933, o médico ucraniano Yuri Voronoy fez o que até então era inédito: uniu um rim de um homem de 60 anos aos vasos femorais de uma mulher de 26. De lá para cá, a técnica foi aperfeiçoada e não somente os rins , mas outros órgãos foram transplantados, possibilitando a sobrevivência de milhares de indivíduos. Todavia, a sobrevida dessas pessoas depende de algo mais complexo que as limitações nas pesquisas científicas: a autorização por parte de familiares de potenciais doadores para efetivação desses procedimentos.
Em primeiro lugar, devemos analisar as causas da resistência das pessoas para dar o “sim” em momento tão delicado.Sabe-se que, além do receio de conflitos com a família, a autorização para doação é dificultada pela pouca informação acerca do que significa a morte encefálica, já que o coração e demais órgãos estão funcionando, mesmo que com ajuda de aparelhos,o que gera dúvidas se o familiar não tem chances de recuperação. Ademais, há a desconfiança da veracidade do diagnóstico,por conta de denúncias de comércio ilegal de órgãos, como o caso do garoto de 10 anos Paulo Pavesi, garoto morador de Poços de Caldas, que de acordo com a conclusão posterior da justiça, estava vivo quando os médicos determinaram o transplante de seus órgãos. Logo, em meio a tantos obstáculos, pessoas morrem mesmo com uma chance real de sobrevivência batendo à porta, já que os responsáveis pela abertura dessa porta estão resistentes a abri-la.
A consequência de toda essa resistência é a morte de milhões de seres humanos que estão nas listas de espera. Conforme dados da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), entre janeiro e setembro de 2012, pouco mais de 30 % das vítimas de morte encefálica tornam-se doadores, o que significaria 22 mil vidas salvas se a percentagem chegasse aos 100% de doação. O custo da negação da doação é muito alto e vidas se perdem e nada parece estar sendo feito.
Portanto,que faz-se urgente que o Ministério da Saúde, aliado à mídia e às escolas, promova campanhas de conscientização visando educar as pessoas,através de debates,palestras e até mesmo inserção no enredo de novelas (em 2001 o REDOME, cadastro de doadores de medula óssea teve um significativo aumento após abordagem do tema em uma novela) desfazendo mitos e esclarecendo fatos, mostrando histórias de pessoas que tiveram suas vidas salvas e famílias que passaram por esse dilema. Outrossim, a polícia federal deve investigar e punir exemplarmente casos de tráfico ilegal, inibindo tais crimes. Dessa forma, haverá estímulo e consequente ampliação no número de doações e poderemos ver diminuído o sofrimento de tantas pessoas que muitas vezes morrem à espera desse bem tão precioso e que depende de um simples, mas poderoso gesto que é a doação de órgãos.