Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 06/11/2020
No livro “Frankenstein”, um estudante de ciências naturais, Victor Frankenstein, cria em seu laboratório, uma criatura humana com a utilização de partes de cadáveres, a fim de provar que o homem pode ter vida eterna. Fora da ficção, a doação de órgãos tem quase a mesma lógica que a descrita, aproveitar parte de outra pessoa, nesse caso - viva ou falecida -, porém com o objetivo de proporcionar uma qualidade de vida um pouco melhor ao receptor. No entanto, esse ato no Brasil ainda possui óbices, os quais impedem o aumento do número de potenciais doadores, principalmente pelo não consentimento familiar que possui motivos multifatoriais.
De início, ressalta-se que o Brasil é uma referência no que diz respeito às técnicas e procedimentos para realização de transplantes. Nesse sentido, consoante a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), o país é um exemplo em política pública na área, porém o número de doações de órgãos ainda está aquém do ideal. Sob essa ótica, de acordo com dados do Registro Brasileiro de Transplantes (RTB), vinculado ao ABTO, entre janeiro e setembro de 2018, foram abordadas 4.794 famílias de potenciais doadores, e obtiveram-se 2.087 recusas, ligadas a desinformação e medo, o que fica evidente um dos motivos que impactam o processo salvador de vidas.
Da mesma maneira, a legislação brasileira facilita todo esse sistema, uma vez que para ser doador de órgãos e tecidos não é necessário fazer cadastro nem deixar documento escrito. Nesse contexto, segundo a ABTO, esse é um ato que tem aval exclusivamente da família, depois de constatado o falecimento oficial do parente. Todavia, mesmo a segurança no processo de transplantes e uma norma desburocratizada, a recusa familiar permanece resistente, o que representa um obstáculo, baseado na dificuldade de compreensão referente à morte encefálica, conforme a Aliança Brasileira pela Doação de Órgãos e Tecidos (Adote).
Dessa forma, torna-se urgente eliminar as barreiras que dificultam o aumento de doações no Brasil. Para tanto, com base no pressuposto de que o corpo social ainda não compreende a importância dessa ação humanitária, o Ministério da Saúde precisa realizar uma forte campanha de conscientização da população a esse respeito. Nesse sentido, tal órgão deve em conjunto com a mídia, abordar esse tema por meio da novela, já que esse é um veículo que prende a atenção de um grande público, bem como, mediante palestras e cursos nas diferentes instituições de ensino, incentivar as pessoas a dialogarem abertamente sobre o desejo de doarem seus órgãos, pois somente assim, a sociedade será mais filantrópica em relação ao próximo.