Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 02/03/2019

No dia 13 de dezembro de 1954, na cidade de Boston, o médico Joseph Eduard Murray realizou o primeiro transplante vital bem-sucedido e deu início aos atuais processos de doação dos órgãos – capazes de salvar diversas vidas. Entretanto, o baixo incentivo à cultura de transplantes no Brasil impossibilita os brasileiros de usufruírem da conquista de Murray na prática. Todavia, não é razoável que, mesmo diante da ampla necessidade de transplantes viscerais, Estado e sociedade civil não se mobilizem para dar eficácia ao êxito.

Em primeiro plano, a prosperidade da doação de órgãos encontra obstáculo em uma sociedade individualista. A esse respeito, o filosofo Adam Smith afirmava, em linhas gerais, que as ambições individuais levam a sociedade ao progresso e orientava que o indivíduo abrisse mão da benevolência a fim de que se conquistasse a evolução nacional. No entanto, a ideologia de Adam Smith não deve ser aplicada a doação de órgãos, sob pena de prejuízos a toda população.

De outra parte, é necessário que o poder público modifique sua estratégia na orientação a respeito dos alo transplantes – aqueles realizados entre indivíduos da mesma espécie, porém geneticamente diferentes. Nesse contexto, no ano de 1991, foi promulgada uma lei que obrigava a doação de órgãos de todos os brasileiros em caso de morte encefálica, excetuando quem estivesse munido de um requisito de recusa do procedimento. Porém, tal medida não gerou os efeitos esperados e resultou em revolta social, de modo que, enquanto a ineficácia do Estado ainda persistir, o Brasil será obrigado a conviver diariamente com um dos mais graves problemas para o SUS: a fila de espera.                     Urge, portanto, que as vitórias de Joseph Edward Murray sejam, de fato, aplicadas no Brasil. Nesse sentido, o Ministério da Saúde, por meio de ficções engajadas na mídia televisiva, sobretudo nos intervalos comerciais em horário nobre, deve incentivar as famílias a aceitarem a doação dos órgãos daqueles que tem declarada a morte encefálica veicular, a fim de atingir um maior nível de conhecimento e interesse por parte da sociedade. Essa iniciativa seria importante porque colaboraria para reduzir o tempo de espera na fila de transplanto e contribuiria para que o feito de Murray deixe de ser uma conquista negligenciada.