Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 17/04/2019

Em “Grey’s Anatomy”, um seriado de drama médico, diversos episódios retratam a problemática da doação de órgãos, sobretudo quando a decisão depende do consentimento familiar. Ainda que, nos últimos anos, o Brasil tenha se destacado pelo número de transplantes de órgãos realizados, a lista de espera permanece desproporcional à quantidade de doadores. A esse respeito, observa-se a infraestrutura limitada dos centros cirúrgicos e a recusa das famílias como as principais causas desse entrave.

Em primeiro plano, percebe-se a insuficiência dos recursos necessários às cirurgias de transplante de órgãos como o maior obstáculo. De acordo com uma reportagem feita pelo Jornal O Povo, a escassez de materiais hospitalares como seringas, catéteres e fios de aço cirúrgico impossibilitaram que algumas cirurgias fossem realizadas nos hospitais de Fortaleza, no Ceará. Em função disso, muitos pacientes perderam a oportunidade de receber os órgãos ou tecidos doados, devido ao limite de tempo que eles são capazes de resistir após a sua retirada. Sendo assim, é necessário que o Poder Público assegure que as unidades de saúde do país estejam apropriadamente equipadas para a realização de transplantes.

Por outro lado, nota-se que a não autorização dos familiares é um fator de impedimento da doação de órgãos no país. Segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, as relações o mundo moderno se tornaram individualizadas, o que leva à desvalorização do bem-comum e da solidariedade. Nesse sentido, é notório que os indivíduos desconsideram a dor física e psicológica de quem aguarda por um longo período a chance de sobrevivência, alegando, por exemplo, que necessitam do corpo íntegro para as cerimônias de despedida do potencial doador de órgãos. Logo, é preciso que a sociedade compreenda a importância de debater sobre o assunto junto aos familiares e informar-lhes sobre o desejo de ser um doador.

Diante dos fatos mencionados, entende-se a necessidade de propor medidas que ampliem a doação de órgãos no Brasil. Para tanto, cabe ao Ministério da Saúde investir na melhoria do procedimento, por meio da capacitação de equipes multiprofissionais e da oferta de equipamentos de qualidade, insumos médico-hospitalares, transportes ágeis e serviços de assistência familiar nas unidades de saúde do país, a fim de que os transplantes sejam realizados em condições ideais e com maiores chances de eficácia. Ademais, a disseminação de informações na mídia é indispensável para que os indivíduos tenham conhecimento dessa realidade e para que a discordância familiar torna-se cada vez menor.