Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 03/06/2019

No filme francês “Coração e Alma”, relata a história do garoto Simon, que morre após sofrer um grave acidente de trânsito ao deixar sua casa. Nesse sentido, a narrativa foca na importante decisão dos familiares que priorizam doar os órgãos do jovem para uma paciente de 50 anos a qual estava na fila de espera por um transplante. Fora da ficção, esse cenário de transferência de órgãos ainda é um tabu no cotidiano brasileiro e tornou-se um problema social, no qual – seja pelos mitos que envolvem a doação, ora pelo individualismo popular – impede o tratamento hospitalar de outras pessoas e causa a morte de vários cidadãos.

Em princípio, cabe analisar os mitos que atrapalham o aumento de doadores sob a visão do sociólogo francês Émile Durkheim. Segundo o autor, o indivíduo só poderá agir na medida em que conhecer o contexto em que está inserido. Analogamente, o cidadão, inserido em um âmbito cercado por conceitos de que o transplante desfigura o corpo do indivíduo ou retira o órgão antes que seja constatada a morte cerebral, tende a conhecer tais informações distorcidas sobre o método de doação e opta por assumir uma posição conservadora. Por consequência, cada vez mais o sistema de saúde apresenta carência de doadores, o que amplia a morte de pacientes na fila de espera.

Ademais, além dos mitos, o egoísmo familiar referente aos atos donativos também auxilia na problemática e convém ser contestado sob a perspectiva do filósofo alemão Hans Jonas. Segundo o autor, o homem deve preocupar-se com os efeitos coletivos de suas ações e não apenas em consequências individuais. Desse forma, parte da sociedade contradiz esse pensamento ao fortalecer atos individualistas – como a falta de discussão sobre o desejo de doar e ao não objetivar os benefícios que essa atitude pode promover. Logo, tal rejeição familiar consolida práticas preconceituosas e torna mais difícil o papel das equipes hospitalares em explicar como a contribuição de órgãos pode salvar outras vidas.

Diante disso, torna-se evidente que medidas devem ser tomadas. Para isso, as escolas, com auxílio governamental, devem difundir esse assunto de maneira intensiva, de modo a usar vídeos e documentários, em aulas especiais de Biologia, que possam ensinar aos alunos os benéficos do transplante de órgãos para que os mesmos propaguem o assunto aos seus pais. Dessa forma, será possível descontruir os mitos presentes na sociedade e aumentar o número de doadores. Além disso, a mídia digital, por meio de postagens em redes sociais, deve destacar informações acerca da relevância de discutir-se o desejo da contribuição e a solidariedade que é criada, a fim de diminuir a rejeição familiar e promover mais ações como a da família de Simon no filme “Coração e Alma”.