Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 17/06/2019

Émile Durkheim, sociólogo francês, afirmava que em uma solidariedade orgânica, para haver harmonia, cada parte do corpo social teria de cumprir sua função, a fim de que não ocorresse uma patologia social. Entretanto, percebe-se que essa tese não vem sendo cumprida, visto que persiste o baixo índice de doação de órgãos no Brasil. Isso ocorre uma vez que há não só a negligência do Estado, mas também a deficiente participação das famílias e escolas.

Em primeiro lugar, ressalta-se que a negligência estatal corrobora significativamente para a pouca adesão à doação de órgãos no país. Essa realidade é constatada pela falta de informação de grande parte dos brasileiros sobre o assunto. Nesse sentido, ainda predomina o medo, incerteza e as superstições de que os procedimentos cirúrgicos, como o transplante, não funcionam. Contudo, de acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, uma pessoal saudável que sofreu morte cerebral pode beneficiar cerca de nove cidadãos, demonstrando a fundamental importância da doação, que ajudará não somente na redução das filas de esperas, mas também salvará milhares de pessoas.Dessa forma, é imprescindível que as campanhas governamentais esclareçam sobre a relevância da doação de órgãos.

Outrossim, é válido frisar que a deficiente atuação das famílias e escolas também dificulta o aumento dos transplantes de órgãos. Conforme o filósofo inglês John Locke, o ser humano nasce como uma folha em branco, sem conhecimento, e o adquire por meio da experiência. Nesse contexto, se desde cedo no âmbito familiar e escolar não apenas debatessem esse assunto, bem como instruíssem  os outros no que diz respeito os benefícios da doação, além da autorização  de que possa haver a doação depois de morto, milhares de pessoas seriam beneficiadas. Desse modo, movimentos como o Pró-Doações, que realizam campanhas conscientizadoras, teriam mais apoio e influenciariam ainda mais nos índices de doações , os quais somente de janeiro a junho de 2018 atingiram crescimento de 7%.

Evidencia-se, portanto, que medidas são necessárias para solucionar o impasse. Nesse viés, cabe ao Ministério da Saúde, por meio da capacitação de profissionais e ampliação de centros cirúrgicos especializados no transplante de órgãos, além de palestras nas comunidades, esclarecer acerca da importância da doação, com o intuito de que haja maior aprovação às campanhas. Ademais, cabe ao Ministério da Educação, em parceria com as famílias, escolas e a mídia, mediante aulas, diálogos, e divulgação nos meios de comunicação, sensibilizar as pessoas desde cedo a não apenas pensar no próximo, mas também em ter a consciência de que o ato de doação de órgãos é a oportunidade que o indivíduo tem de salvar outras vidas.