Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 08/07/2019

No estado do Ceará, a campanha ‘‘Doe, de coração’’, realizada pela TV Verdes Mares, contribuiu para que em 2016, a fila de espera para transplante de córnea fosse zerada. Nesse contexto, o estado nordestino tornou-se a unidade federativa líder em cirurgias de transplante, o que mostra a solidariedade da população no que se refere à questão. Contudo, apesar desse exemplo de sucesso, a doação de órgãos no Brasil ainda enfrenta dilemas, que fazem com que os empecilhos da matéria persistam no cotidiano da saúde pública. Dessa forma, em uma nação que sofre com extensas listas de espera, é essencial que a sociedade discuta os fatores que ocasionam essa problemática. Assim, é lícito afirmar que a ineficiência governamental, além do preconceito de parcela dos brasileiros, colaboram para um número pouco satisfatório de doações.

Em primeiro lugar, evidencia-se, por parte dos Governos Federal e Estaduais, a ausência de uma infraestrutura logística eficaz de transporte de órgãos. Essa lógica é comprovada pelos baixos repasses financeiros do Ministério da Saúde e das Secretarias Estaduais de Saúde aos hospitais de referência que realizam cirurgias de transplante, como os hospitais universitários. Com isso, sem recursos para aquisição e manutenção de helicópteros e aeronaves que possam transportar os items entre estados e cidades diferentes, a cirurgia é impossibilitada. Logo, é substancial a mudança desse quadro.

Outrossim, é imperativo pontuar que a postura preconceituosa de parte da sociedade também é um dilema da doação de órgãos no país, no que concerne à falta de informação. Essa conduta deriva dos baixos níveis educacionais do brasileiro médio, que não tem, na escola e em casa, acesso à informação segura e de qualidade a respeito do processo de doação de órgãos. Sob esse aspecto essencial da educação como ferramenta de transformação social, Immanuel Kant, filósofo prussiano, defende que o homem nada mais é do que aquilo que a educação faz dele. Nota-se, assim, na perspectiva do pensador, que educar pode fazer do indivíduo um ser de impacto positivo no meio social.

Infere-se, portanto, que os dilemas na doação de órgãos no país podem ser vencidos pelo investimento em saúde e educação. Posto isso, o Ministério da Saúde, por meio de captação de verba emergencial, deve aumentar os repasses monetários aos hospitais que realizam transplantes no Brasil. Tais repasses devem ser destinados, exclusivamente, à aquisição de meios de transporte e construção e modernização de centros cirúrgicos e leitos. Ademais, o Ministério da Educação deve, mediante palestras e campanhas educativas em escolas e praças públicas, conscientizar e informar a sociedade civil a respeito da importância e segurança da doação de órgãos.