Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 26/07/2019
Para o vencedor do Nobel da paz, Nelson Mandela, “Devemos (…) inspirar a esperança onde há desespero”. Nesse contexto, insere-se a discussão sobre a política de doação de órgãos no Brasil, haja vista que diversas vidas podem ser salvas com tais doações. Dessa forma, é necessária uma análise sobre os fatos recorrentes a essa causa, sobretudo no que tange ao papel do Estado nas políticas públicas e à conscientização social.
Cabe destacar, de início, o conceito de “banalização do mal”, de Hannah Arendt. Segundo a filósofa, a massificação da sociedade a impossibilitou de fazer julgamentos morais, ou seja, as mazelas humanas são vistas como naturais e espontâneas pelo corpo social. Consequentemente, as pessoas se tornam cada vez mais indiferentes ao sofrimento alheio. Tal realidade reflete nas doações de órgãos no Brasil uma vez que, embora tenha aumentado o número de procedimentos, ainda existem filas de espera enormes para receber a transferência do órgão. Logo, não se pode negar que a banalização da maldade prejudica a conscientização e a empatia social, já que a quantidade de mortes (necessária para doação de certos órgãos) é maior que a quantidade de cirurgias a serem realizadas.
Vale ressaltar, ainda, o pensamento de Auguste Comte: “não existe governo sem sociedade, assim como sociedade sem governo”. A partir dessa premissa, evidencia-se a importância da reciprocidade entre tais áreas. Em suma, não só a população deve se solidarizar, mas também é fundamental que o governo incentive tal solidarização. Contudo, essa prática não é frequente, haja vista que a saúde se encontra desvalorizada, exemplificada pela posição - 79º - ocupada pelo Brasil no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano entre os países. Desse modo, a saúde no país prescinde de maior investimento para que seja possível incrementar as políticas públicas voltadas à doação de órgãos.
Diante de tais argumentos, portanto, é preciso garantir o incentivo estatal à conscientização dos brasileiros. Dessarte, cabe ao Ministério da Saúde, junto ao Ministério da Educação, devido á sua capacidade de formar e instruir mentalidades, a promoção de campanhas e aulas (inseridas na grade curricular) sobre ética e saúde nas escolas e na internet. Isso pode ser feito por meio da disponibilização de profissionais e parcerias com influenciadores digitais, que demonstrem a importância da doação de órgãos, a fim de mentalizar essa percepção no cidadão desde cedo. Além disso, o Ministério da saúde deve investir na formação e expansão territorial de equipes multiprofissionais, mediante redirecionamento de verbas, para garantir e facilitar o acesso à tal procedimento. Com essas medidas, será possível inspirar esperança no desespero de milhares de pessoas que necessitam de uma doação no Brasil, tal qual defendido por Mandela.