Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 17/08/2019

Dados divulgados pela OMS indicam que o SUS é um dos maiores sistemas públicos de transplante de órgãos no mundo, sendo responsável por 95% desses procedimentos realizados no Brasil. Entretanto, o Ministério da Saúde indica que as suas metas ainda não foram atingidas, principalmente, devido à falta de informação populacional, gerando, assim, repercussões preocupantes.

Deve-se considerar, de início, que, conforme o DATASUS, cerca de 70% das famílias não autorizam o transplante em casos no qual ele é possível. O principal motivo disso é a persistência de conceitos equivocados entre a maior parte da população brasileira. Destaca-se, por exemplo, a falta de compreensão a respeito da morte cerebral. Para muitos indivíduos, se ainda houver batimento cardíaco, ainda há chance de sobrevivência. Contudo, não entendem que a ausência de atividade encefálica compromete integralmente outras atividades vitais, como a respiração, impedindo uma vida sem o auxílio de máquinas. Vale ressaltar, também, que familiares temem a desfiguração e a perda da integridade física do corpo do falecido, fazendo com que a doação seja vista como uma mutilação e não como um ato cirúrgico.

Em decorrência disso, a fila de pessoas à espera pela recepção de um órgão continua crescendo. A ABTO apontou que, no ano de 2012, havia cerca de 6 mil candidatos favoráveis para realizar uma doação, entretanto, apenas 1800 famílias autorizaram o procedimento. Como consequência da persistência deste contexto, existem, atualmente, 32 mil brasileiros aguardando um transplante. Além disso, o orçamento estatal é sobrecarregado tanto pelo cuidado de pessoas já com a morte cerebral declarada, quanto daquelas na fila que, já com a saúde debilitada, necessitam de tratamentos paliativos por longos períodos de tempo. Por último, vale ressaltar que, quanto mais tempo um paciente for internado ligado à respiração assistida, maior será o sofrimento dos seus entes queridos, pois, conforme já demonstrado anteriormente, a falta de informação mantém as esperanças por uma recuperação.

Portanto, ações governamentais são cabíveis. O Ministério da Saúde, em parceria com o Governo Federal, deve, por meio dos principais canais de comunicação, educar a população sobre o processo de doação de órgãos. Por exemplo, uma vez por semana e durante os horários mais nobres, canais abertos da televisão podem transmitir uma série documentária com o objetivo de explicar os procedimentos cirúrgicos realizados, como são transportados os órgãos e para quem eles são doados, assim como incentivar pessoas a conversarem a respeito desse assunto com os seus entes queridos. Dessa forma, familiares poderão decidir, de forma mais consciente, permitir ou não a doação.