Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 27/08/2019

O sociólogo Durkheim postulou o termo “anomia social” para se referir ao estado de caos na sociedade, o qual se aplica a questão da doação de órgãos. Nesse sentido, é notório que um dos entraves para essa ação é a negação das famílias em aceitar o procedimento. Ademais, vale ressaltar que problemas estruturais hospitalares e o déficit da capacitação profissional corroboram para as dificuldades dessa atividade no Brasil. Por isso, é de suma importância que haja medidas para reverter essa situação.

Nesse contexto de negação familiar, de acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), atualmente no país há cerca de 40 mil pessoas na fila de espera para um transplante. Tal dado reitera a necessidade de mais doadores, porém, o núcleo familiar é o responsável pela autorização do procedimento. Com isso, a maneira de comunicar aos parentes o falecimento do indivíduo e a opção da doação de órgãos, reflete na resposta. Ainda com registros da ABTO, a negação parental do Norte do Brasil chega a quase 90%, o que prejudica milhares de pessoas que estão no aguardo de um doador. Desse modo, é fundamental traquejo para dialogar com as pessoas –principalmente os envolvidos–, ao iniciar a conversação sobre o tema não apenas no momento da morte, mas anterior a ela. Para que assim, com conhecimento e empatia acerca do assunto ocorra a redução dessas estatísticas.

Ainda nesse viés, cabe salientar que o Brasil é referência em procedimentos de doação de órgãos, o Sistema Único de Saúde (SUS) financia em torno de 95% dessa atividade. Nessa sequência, a saúde pública brasileira oferece acompanhamento desde exames preparatórios até os medicamentos pós-transplante. Entretanto, a maioria dos casos acontece no Sul e Sudeste da nação, sendo de grande demanda a doação de órgãos como pulmões e rins, que não podem ser armazenados por muito tempo, logo, restringe-se a nível estadual, pois devem chegar urgentemente ao receptor. Por consequência, é preciso melhor infraestrutura hospitalar, médica e de aviação para que o transporte e procedimento sejam mais eficazes e possam abarcar mais áreas do país. Tão logo, é primordial o fomento do Ministério da Saúde (MS) nesse seguimento para que haja ainda mais melhorias nessa questão.

Portanto, faz-se necessário que o Estado atue por meio do Ministério da Educação (MEC) e MS ao promover campanhas publicitárias nas mídias sociais e debates públicos com médicos especializados e familiares que aceitaram a doação e receptores do procedimento, para que essas ações auxiliem na empatia e melhor aceitação do processo. Somado a isso, esses dois ministérios ainda aliados possam investir na capacitação dos profissionais no que tange a forma de dialogar com a família. Além disso, é fundamental o fomento do governo na questão aérea, ao disponibilizar mais aviões e jatos para o transporte. Assim, paulatinamente, conseguir-se-á aumentar a doação de órgãos no Brasil.