Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 12/09/2019

O processo de doação de órgãos, atitude nobre em prol da vida de uma pessoa debilitada que recebe os órgãos autorizados pós morte cefálica de terceiros, é muito problematizado e pouco discutido no Brasil. Algumas questões, como a falta de informação sobre o processo por parte do povo e a legislação precária sobre o tema, ilustram esse cenário problemático, o que acarreta a baixa adesão às campanhas nacionais e o aumento gradativo das filas de espera por transplante. Dessa forma, o panorama complexo da doação de órgãos torna-se discutível na medida em que há a inobservância do governo para com essa questão ao não criar campanhas de conscientização, além da crescente desinformação popular.

Em primeiro plano, a falta de conhecimento da população brasileira sobre os processos burocráticos de se tornar um doador de órgãos é o principal fator responsável pela baixa mobilização em prol da causa. A falta de informação aliada à disseminação de fake news - como por exemplo a ideia de que o corpo ficaria desconfigurado pós cirurgia de coleta de órgão - gera uma massa alienada e desconfiada do sistema que controla essas transações. Assim, o povo se recusa cada vez mais a participar dessa importante campanha por insegurança, justificada pela falta de informação clara que deveria ser fornecida pelos representantes competentes, como hospitais públicos e agentes de saúde capacitados.

Além disso, a falta de políticas públicas que incentivem a doação, acompanhada de mudanças na legislação, é outra razão para os dilemas enfrentados. Ao longo dos anos, a lei sobre doação nacional de órgãos mudou drasticamente: até os anos 2000, de acordo com a entrevista com o Doutor Drauzio Varella, todos os brasileiros eram doadores compulsórios, a não ser aqueles que se declaravam judicialmente contrários a isso. Juntamente com essas dinâmicas legislativas contínuas, o governo não organiza campanhas de conscientização sobre as doações, o que torna ainda mais profunda a questão da falta de conhecimento popular e, então, a falta de doadores. Logo, subproduto da ineficiência do Estado, o sistema de saúde sofre com o aumento progressivo da fila de espera justamente pela baixa adesão da população por falta de campanhas nacionais e políticas públicas eficientes.

Dessarte, medidas que visam amenizar os dilemas da doação de órgãos no Brasil são necessárias. Para tal, o Ministério da Saúde, em conjunto com as emissoras de televisão, deve promover campanhas de conscientização e esclarecimento de dúvidas por meio de propagandas com relatos sobre a fila de espera atual para transplantes e médicos capacitados. Essa proposta sugere o aumento gradativo da compreensão sobre a problemática e, assim, da busca do público pelo processo legal de tornarem-se doadores nacionais, a fim de mitigar o atual caos desse ramo da saúde pública.