Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 16/09/2019

No filme “Uma Prova de Amor” de Nick Cassavetes, são retratadas as dificuldades de uma garota, a Kate, que sofre com leucemia e necessita de um doador de medula óssea. Fora da ficção, é fato que a realidade apresentada por Nick simboliza os obstáculos da doação de órgãos presente no cenário hodierno, tendo em vista que, tanto a desinformação das pessoas, como a negligência governamental contribuem para tal dilema. Dessa forma, faz-se necessário discutir acerca dos fatores e buscar medidas que amenizem essa problemática.

De acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Orgãos, 47% das famílias negam a doação de órgãos de parentes com morte cerebral. Isso ocorre porque, a falta de informação sobre os procedimentos práticos, somado à persistência de crenças e tabus, faz com que os indivíduos tenham receio de falar sobre tal assunto, o que dificulta a tomada de decisão no momento em que passam por situações desconfortáveis. Diante disso, a insuficiência de profissionais especializados no assunto, sobretudo psicólogos para lidarem com as famílias e conscientizá-las à autorizar o processo, contrapõe à ideia de biopoder do filósofo Michel Foucault, pois, ao contribuir para a permanência desse “gargalo” na doação de órgãos, o governo deixa de controlar os problemas sociais.

Além disso, a negligência da esfera pública também favorece a prática de atitudes antiéticas relacionadas ao transplante. A falta de legislação específica que delimita os procedimentos consiste em oportunidades para a comercialização ilegal de partes do corpo, prova disso, segundo a Organização Mundial da Saúde, o tráfico de órgãos humanos movimenta até 1,2 bilhões ao ano. Tal ato representa uma extrema desumanização do ser humano, além de quê, o que poderia ser usado para proporcionar a saúde à alguém, passa a ser objeto para a obtenção de lucro e a satisfação de ambições pessoais, de modo que se opõe à ética utilitarista do filósofo Jeremy Bentham, em que as atitudes devem visar o bem quantitativamente.

De modo exposto, percebe-se a necessidade de medidas que amenizem os problemas enfrentados na doação de órgãos. Nesse sentido, é essencial que o Ministério da Saúde amplie a conscientização, mediante o debate nas redes sociais e pela ampliação do número de psicólogos, no intuito de informar e incentivar as pessoas sobre a importância de tal procedimento. Ademais, é necessário que o Poder Legislativo delimite o processo de transplantes, mediante a criação de leis específicas para a área, com o objetivo de erradicar práticas ilegais de comercialização. Logo, será possível legitimar a doação de órgãos e contribuir para que o dilema enfrentado pela garota Kate, do filme “Uma Prova de Amor”, seja apenas uma ficção.