Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 16/09/2019

No filme “Um Ato de Coragem”, observa-se a história de Michael, uma criança que ao ser diagnosticada com uma grave doença, é informada que somente um transplante de coração pode garantir a sua sobrevivência.Sem outra alternativa, além do procedimento, sua família é obrigada a enfrentar uma situação desesperadora e emocionalmente desgastante.Do mesmo modo, fora da ficção, a doação de orgãos no Brasil ainda é uma prática restrita que encontra nas limitadas campanhas de incentivo a esse ato e na resistência familiar os principais empecilhos para sua plena realização.

Em primeiro lugar, é importante destacar que a inexistência de campanhas públicas sistemáticas de incentivo à doação de órgãos e tecidos é fator determinante para o baixo número de voluntários.Consoante Franz Kafka, a solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana.Entretanto, devido à carência de ações governamentais constantes para a captação de novos doadores, as informações sobre o funcionamento desse procedimento e sua importância social são limitadas e esse sentimento de empatia pelas necessidades do outro não é estimulado coletivamente.

Ademais, convém frisar que a recusa familiar em autorizar possíveis doações de órgãos também contribui para as longas filas de espera nos hospitais do país. De acordo com a Associação Brasileira de Órgãos (ABTO), somente 47% das famílias com parentes que tiveram morte encefálica aceitaram realizer a cirurgia de transferência de órgãos. Nesse contexto, a ausência de conversas prévias que manifestem claramente a vontade do doador, faz com que os responsáveis pelo indivíduo sejam introduzidos à ideia apenas no momento do óbito: uma situação com intensa carga emocional que dificulta um julgamento racional e conduz à negação em relação ao transplante.

Portanto, é mister que o Estado tome providências para enfrentar os dilemas da doações de órgãos e tecidos no Brasil. À vista disso, cabe ao Governo Federal, em parceria com o Ministério da Saúde, criar o projeto “Brasil Unido Pela Doação de Órgãos”. Com o objetivo ampliar o incentivo a esse ato solidário  e viabilizar o diálogo entre doadores e suas famílias, esse projeto, com o auxílio de médicos, psicólogos e publicitários, deve promover palestras públicas mensais sobre o tema e desenvolver campanhas midiáticas com casos reais de pessoas que foram beneficiadas com o transplante a fim de sensiblizar a população.Além disso, deve-se criar um cadastro nacional de doadores para que o grupo familiar do voluntário saiba com antecedência desse desejo e possa se informar previamente sobre o funcionamento desse procedimento.Somente assim será possível desenvolver uma ação social coletiva que restringe as longas filas de espera por um transplante à ficção.