Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 01/10/2019
Em 2013, o empresário brasileiro Chiquinho Scarpa anunciou que enterraria seu automóvel de luxo, um Bentley Continental, assim como os faraós enterravam seus tesouros no antigo Egito. Após colocar o carro dentro da cova ele revelou que tudo se tratava de uma campanha com o seguinte slogan: “absurdo é enterrar algo muito mais valioso que um carro, seus órgãos”. Hodiernamente, o Brasil enfrenta, infelizmente, diversos problemas relacionados aos dilemas da doação de órgãos. São fatores que contribuem para essa problemática, a baixa visibilidade do assunto na mídia, aliada ao insuficiente investimento público para amenizar esse revés.
Nesse contexto, o Brasil não investe suficientemente em campanhas de conscientização sobre a doação de órgãos. Consequentemente, informações de suma relevância sobre esse assunto não são devidamente conhecidas por toda a população. Segundo Zygmunt Bauman, “na era da informação a invisibilidade é equivalente à morte”. Sob tal ótica, a teoria do sociólogo polonês se encaixa perfeitamente nessa questão, uma vez que, a baixa exposição tende esconder o problema. Só para exemplificar, na época de eventos como a Copa do Mundo de Futebol ou as Olimpíadas, a extrema exposição midiática coloca esses assuntos no topo das conversas, situação que poderia ser explorada em favor desse ato tão nobre. Faz -se imprescindível, portanto, a dissolução dessa conjuntura.
Ademais, um orçamento estatal insuficiente para custear todas as etapas, desde a doação até o recebimento do novo órgão, agrava o problema. Isso acontece porque o país gasta mal os seus recursos, não priorizando ações essenciais para o bem comum. Exemplo disso, são os cerca de R$ 10 bilhões que o Brasil gasta anualmente, segundo estimativas do Ministério da Fazenda, somente com “supersalários” - vencimentos acima do teto constitucional - que, atualmente, é de R$ 39,2 mil mensais para o funcionalismo público, o que demonstra, dessa maneira, o perverso descaso com o dinheiro público e, por conseguinte, com a saúde e a vida das pessoas que precisam de um transplante.
Diante desse cenário, é indispensável a adoção de medidas capazes de amenizar os dilemas da doação de órgãos. Posto isso, cabe ao Poder Executivo, por meio do remanejamento de recursos financeiros, aumentar o orçamento estatal destinado à esse setor específico, a fim de, custear campanhas permanentes sobre a importância da doação de órgãos, além de subsidiar o treinamento de médicos, logística, equipar hospitais e oferecer esse serviço no Sistema Único de Saúde - SUS - em todo o território nacional e não somente nos grandes centros. Para isso, pode-se, por exemplo, reverter a nefasta política de renúncias fiscais que, segundo o Tribunal de Contas da União - TCU - somaram, somente em 2017, R$ 354,7 bilhões e destinar parte desse montante para financiar esse projeto.