Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 25/09/2019
Doar: um ato de amor
Os santos Cosme e Damião foram médicos que realizavam atendimentos sem custos à população. Atribui-se aos irmãos a realização do primeiro transplante da história, retratado em pintura do italiano Fra Angélico, na qual eles implantam uma perna saudável em um homem, no lugar da sua que estava ferida. No contexto atual, a doação de órgãos é, sem dúvidas, imprescindível para garantir a realização de transplantes e salvar vidas. No Brasil, entretanto, a desinformação sobre o assunto e o individualismo ainda são entraves para o alcance do nível desejado de doações de órgãos e a perpetuação dessa situação causa sofrimento e mortes no país todos os anos, por isso se faz vital a sua discussão.
A princípio, é evidente o impacto do profundo desconhecimento dos cidadãos em geral acerca das regras, protocolos e formas de doação. Segundo o Ministério da Saúde, mais de 40% da população brasileira não aceita doar órgãos de parentes falecidos por morte cerebral. Uma série de mitos os afasta da possibilidade de dispor dessas partes, por exemplo, a crença de que deve estar expressa em documento a vontade de ser doador, a ideia de que o corpo ficaria deformado após a retirada ou a responsabilidade da família em custear o procedimento. Tais afirmações são equivocadas e precisam ser esclarecidas para evitar a resistência e encorajar as doações sempre que possível.
Em segundo lugar, o sociólogo Amitai Etzioni afirma: “A sociedade deve articular o que é bom”. Esta máxima é uma resposta ao crescente individualismo da década de 1970, sob essa ótica, ele conceitua o comunitarismo como uma filosofia fundada em valores sociais fundamentais, por conseguinte, a existência de direitos individuais fortes supõem responsabilidades sociais fortes. De modo análogo, percebe-se que o individualismo impede os indivíduos de compreender o valor da doação de órgãos como ato de amor e solidariedade para salvar vidas. Em suma, trata-se de um impasse, pois - ao contrário do comunitarismo de Etzioni - não assume-se a obrigação moral para com o bem estar da comunidade.
Assim sendo, é indispensável a tomada de medidas atenuantes aos obstáculos abordados. Cabe, portanto, ao Ministério da Saúde promover campanhas de divulgação de informações sobre transplantes e doação de órgãos no Brasil, mediante veiculação em mídias de comunicação de massa, no intuito de desmistificar e ampliar o entendimento das pessoas a respeito do assunto e aumentar, então a quantidade de doadores. Ademais, as escolas devem abordar a temática em sala ressaltando o caráter altruísta e solidário na decisão de doar, tal como fizeram São Cosme e Damião.