Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 28/09/2019

No Antigo Egito, os corpos eram embalsamados a fim de conservarem-se após a morte, o que caracterizava a vida eterna naquela cultura, já que não ocorria a decomposição do corpo. Contudo, na contemporaneidade, é realizada a doação e o transplante de órgãos em diversos países para casos de saúde onde é a única saída viável para melhorar a qualidade de vida da pessoa necessitada, ou salvá-la do óbito. No Brasil, os números de doadores aumentaram nos últimos anos, porém a recusa de muitos familiares no momento do falecimento do ente querido, por causa da falta de debate e rumores de casos de corrupção, é um desafio para o crescimento progressivo das doações.

Primeiramente, é válido ressaltar que a alteração da lei federal em 1997, onde todos eram automaticamente doadores, para a responsabilidade da família de decidir sobre o futuro dos órgãos configura contradições, quando aliada ao desconhecimento sobre o assunto. Nesse viés, mesmo que o falecido já tenha deixado por escrito que gostaria de ser um doador, o âmbito familiar é quem solucionará a questão. Assim, a falta de informação é o fator decisivo para a recusa das famílias, pois não há majoritariamente o debate sobre a doação de órgãos nesse grupo social, de acordo com o nefrologista e integrante José Medina da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos.

Ademais, os rumores de corrupção e a desconfiança no Sistema Único de Saúde são fatores que compõem os dilemas para a doação de órgãos no Brasil. Nessa perspectiva, os familiares enfrentam a sua liberdade de escolher com base no medo. Segundo o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre, o maior peso da liberdade está na responsabilidade do indivíduo em ter que arcar com as consequências de todas as suas ações. Destarte, a doação de órgãos é impedida pelo temor das famílias de contribuírem de alguma forma com o tráfico ilegal, através da consequência da sua alternativa.

Infere-se, portanto, que o dilema da doação de órgãos no Brasil refere-se à falta de discussão entre as famílias e à desconfiança nas instituições. Nesse sentido, urge que o Ministério da Educação em conjunto com professores da área da biologia, promova debates sobre a importância da doação de órgãos nos parques, para atingir tanto jovens, quanto adultos e idosos. Além disso, esses debates devem ser realizados mediante a exposição da opinião da população local, juntamente com a intervenção dos professores, com o fito de erradicar possíveis medos pelos rumores de corrupção e incentivar a doação e os debates familiares sobre o assunto. Essa ação tem o objetivo de influenciar pessoas a serem doadoras, assim como contribuir para a reflexão dos membros da família. Desse modo, a “vida eterna”, com a conservação dos corpos, pode transformar-se, efetivamente, em um aumento de expectativa e qualidade de vida para outras pessoas.