Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 28/09/2019

Em um dos episódios da série americana ‘‘Grey’s Anatomy’’, é retratada a luta da médica Izzie Stevens, que para salvar seu noivo Denny – cujo o lugar na fila para um transplante de coração estava bem longe do topo – corta os fios de seus aparelhos em um ato de desespero, para que com a sua piora, o transplante seja realizado. Não obstante, transcende à arte a agonia de muitos pacientes e suas famílias no que tange a doação de órgãos no Brasil. Isso ocorre devido a falta de políticas públicas efetivas por parte do Estado e a imperícia social frente aos dilemas da doação de órgãos. Esse cenário é um agravante a ser resolvido não apenas pelo poder público, mas por toda a sociedade.

Convém ressaltar, a princípio como esse panorama supracitado aflige todo o corpo social. Isso ocorre, em grande parte, devido a falta de incentivo da sociedade, visto que, os dilemas da doação de órgãos são pouco abordados com a população. Sob esse âmbito, o corpo social se mantém alienado frente a esse problemática, o que contribui para que filas de espera cada vez maiores se formem, devido à falta de disponibilidade de doadores no sistema de saúde. Esse cenário pode ser exemplificado em analogia a obra de José Saramago, Ensaio sobre Cegueira, que cita a alienação da sociedade como sendo a cegueira moral frente à alguma problemática vigente, que no caso exposto, contribui para que o corpo social brasileiro continue sendo prejudicado.

Por conseguinte, 47% das famílias brasileiras se recusam a doar órgãos de pacientes com morte cerebral, como aponta a ABTO – Associação Brasileira de Transplante de Órgãos. Ademais, outro agravante é a falta de investimento, por parte do Estado, em centros de apoio psicológico para familiares de doadores e transplantados, além de em ONG’s especializadas, como a ADOTE –  Aliança Brasileira pela Doação de Órgãos e Tecidos – que visa incentivar e conscientizar a população brasileira acerca da doação de órgãos. Visto isso, de maneira análoga ao jornalista irlandês George Shaw: ‘‘O progresso é impossível sem mudança’’, é necessário que ocorram alterações nessa realidade.

Logo, é mister que o Estado tome providências para atenuar tal quadro. Para isso, compete ao Executivo aplicar, por meio de concessões, investimentos em ONG’s e Institutos de apoio familiar, a fim de permitir que as mesmas por meio de campanhas com palestras, panfletos e convites à sociedade de conhecerem seus espaços físicos com encontros envolvendo profissionais da saúde e pacientes, possam continuar a incentivar o corpo social a se aproximar dessa causa, e fazê-lo enxergar que esses dilemas só podem ser sanados com ações em conjunto da sociedade. Também é necessário investir em acompanhamento psicológico de familiares do doador e receptor, a fim de garantir a estabilidade do processo. Somente assim, será possível que a agonia de Izzie e seu noivo se mantenha na ficção.