Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 01/10/2019
Solidariedade mecânica
Em um dos episódios da série brasileira “Sob pressão”, Bete, mãe de um rapaz que sofre um acidente de moto em que não usava capacete, não consegue lidar com a dor de perder um filho, e recusa o diagnóstico do médico. O profissional afirma que o rapaz teve morte cerebral, no entanto, com a esperança de uma reversão no quadro, Bete não dá ouvidos aos médicos, que procuram convencê-la a doar os órgãos do filho. Fora da ficção, é fato que a mídia pode ser relacionada a sociedade brasileira do século XXI, haja vista que há empecilhos os quais dificultam o processo de doação de órgãos.
Primeiramente, é pertinente referenciar o filósofo francês Émile Durkheim. Para ele, a sociedade funciona como um corpo vivo, uma parte depende da outra, assim como no corpo humano que depende do funcionamento de todos os órgãos. A solidariedade seria a conexão que une esses componentes numa sociedade. Isto é, o bem- estar do grupo é o que confere sentido às relações, o que Durkheim nomeia de solidariedade mecânica. De outra parte, a falta de informação corrobora para o desconhecimento sobre a importância de ser solidário quanto à doação de órgãos, posto que as campanhas publicitárias não são frequentes e, sem uma maior divulgação à população, o número de doadores faz-se menor do que a real demanda.
Deve-se abordar, ainda, que alguns motivos precisam ser pontuados ao tratar da não aceitação familiar para doação de órgãos. Muitos acreditam que a vida encerra quando o coração para de bater, visão romantizada de que ele é o símbolo da vida. Como o coração ainda continua em atividade, a família se recusa a aceitar a morte encefálica, mesmo que essa seja a definição legal de morte. Outro ponto que dificulta a aceitação de familiares,é a inadequação do processo de doação, isso acontece quando profissionais da saúde solicitam a doação de órgãos antes de confirmar o diagnóstico do paciente, o que gera revolta para os familiares, que se sentem cobrados pela equipe. Nesse sentido, um fator decisivo é que profissionais da saúde saibam atuar da melhor maneira ao tratar desse tema.
Evidencia-se, portanto, que as barreiras que interferem na doação de órgãos precisam ser superadas. Dessa forma, a mídia tem papel imprescindível na exposição de dados informativos sobre as campanhas de doação, seja na televisão e internet, seja em áreas físicas,como outdoors. Assim, os cidadãos seriam incentivados a exercerem a solidariedade. Ademais, é função do Ministério da Saúde promover palestras aos profissionais dessa área, a fim de melhorar a forma como a doação de órgãos é solicitada, fazendo com que os familiares tenham menos desconforto sobre o assunto. Desse modo, será possível construir uma sociedade embasada na solidariedade mecânica defendida por Durkheim.