Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 01/10/2019
Cercada de achismos e senso-comum, a doação de órgãos constitui um tema de grande relevância no mundo atual. A quantidade de pessoas aguardando doadores para ter mais uma chance de vida é imensa, mais de 30 mil segundo a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO). Isso revela a ignorância e a falta de diálogo social à cerca do tema, evidenciando também a necessidade da ampliação de informações sobre a magnitude do ato de transferência.
Inicialmente, faz-se urgente dizer que a doação de órgãos pode ser efetuada tanto por pessoas vivas quanto mortas, sendo as últimas as de maior procura, pois podem fazer a doação de mais de um órgão. O grande impasse sobre o processo está no fato da autorização ter que ser feita pela família, que não aceitam a doação em 47% dos casos, de acordo com a ABTO. Tal dado é consequência de inúmeros fatores, podendo estar ligados tanto com a desconfiança sobre as informações passadas pelos médicos quanto com a preocupação à cerca da alma do falecido, reflexo totalmente religioso e espiritual.
Porém, o maior fator que inviabiliza a doação de órgãos é a falta de diálogo, pois o tema da morte muitas vezes é evitado no meio familiar, reflexo de uma mentalidade moderna e positivista muito criticada pelo filósofo francês Michel Foucault. Para ele, a ciência fez com que a sociedade afastasse tudo aquilo que não demonstrasse normalidade ou progresso, colocando assuntos como doenças ou falecimento de lado. Assim, sem a devida discussão sobre o tema, os familiares não saberão os desejos daquele que, futuramente, virá a óbito.
Portanto, tendo em mente o envelhecimento da sociedade e o aumento de doenças relacionadas à alimentação, o que poderá elevar a demanda por órgãos, cabe ao governo o desenvolvimento de campanhas sobre a importância da doação. Além disso, médicos devem aderir à causa, educando cidadãos através de redes sociais e mídias. Pois, para o filósofo estadunidente Ralph Waldo Emerson “a maior riqueza é a saúde”.