Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 02/10/2019
A série de televisão médica Grey’s Anatomy, em um de seus episódios, retrata a doação de órgãos de um paciente que, após sofrer um grave acidente, teve morte cerebral. Embora fictício, tal cenário levanta debates para a sociedade contemporânea, visto que um transplante pode salvar vidas. No entanto, a falta de mobilização e incentivo da população, assim como o desconhecimento das famílias atuam como imbróglios nessa problemática. Desse modo, a melhor forma de resolver esse paradoxo é investir na disseminação de informações sobre o tema.
Em primeira análise, segundo o filósofo polonês Zygmunt Bauman, a era contemporânea é caracterizada pelo enfraquecimento dos laços afetivos. Logo, tornou-se natural a falta de interesse em buscar informações e oferecer ajuda mediante o sofrimento alheio. Nesse contexto, a doação de órgãos é um assunto desconsiderado por parcela significativa do contingente demográfico, conjuntura que dificulta a mobilização de doadores e prejudica vidas que poderiam ser beneficiadas.
Por conseguinte, conforme ideário de Thomas Hobbes, é responsabilidade do Estado garantir saúde e bem-estar social. Entretanto, a falta de campanhas de conscientização e esclarecimento sobre a doação de órgãos sinaliza a negligência com que é tratada essa problemática. Nesse sentido, desmistificar conceitos errôneos e apresentar para a sociedade os inúmeros benefícios para os receptores desse ato altruísta é uma alternativa para solucionar essa lacuna.
Além disso, entra em questão o papel da família nesse impasse. Segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos(ABTO), 47% desse grupo social se recusa a doar os órgãos parentes com morte cerebral. Esse dado é alarmante e expõe a importância do conhecimento sobre o desejo de realizar o procedimento em caso de falecimento. Por conta disso, é essencial que os doadores manifestem sua vontade em vida, para que mais pessoas sejam beneficiadas.
Portanto, cabe ao Ministério da Saúde, em parceria com a ABTO, esclarecer acerca do procedimento, importância e impacto da doação de órgãos. Para isso, profissionais de saúde especializados e pacientes que sobreviveram após um transplante devem ser envolvidos em palestras educativas. Essa medida será capaz de mobilizar e encorajar mais cidadãos a se declararem doadores e, por conseguinte, mais vidas poderão ser salvas. Somado a isso, é necessário que o Ministério da Educação levante debates e rodas de conversa sobre o assunto com a sociedade e, em especial, as famílias, a fim de tornar público o desejo de um membro em realizar tal ação de solidariedade.