Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 02/10/2019

Em 2017, dados da Associação Brasileira de Transporte de Órgãos (ABTO), relataram o recorde de transplantes do país, com 16,6 doadores efetivos para cada milhão de habitantes. Entretanto, apesar do avanço desse quadro de saúde, a fila de pacientes que necessitam da doação de órgãos é extensa. Sob essa perspectiva, a carência do debate acerca da importância desse ato que salva vidas e a má distribuição das equipes de transplantes pelo Brasil são desafios a serem combatidos.

Em primeiro plano, é importante notar que a discussão sobre a doação de órgãos é escassa, pois ainda é considerada um tabu social. Nesse sentido, a existência de mitos no que tange à doação é responsável por torná-la mais difícil, uma vez que o não reconhecimento de muitos indivíduos sobre a irreversibilidade da morte encefálica e a ideia errônea da comercialização dos órgãos doados geram a não adesão de boa parte dos cidadãos à causa. Tal conjuntura relaciona-se com a teoria dos “Ídolos”, do filósofo Francis Bacon, a qual as falsas percepções humanas atrapalham a compreensão da realidade. Dessa maneira, pelo fato não ser discutido, muitos indivíduos que apresentam interesse em se tornar doadores, não alertam a sua família, dificultando o processo de consentimento familiar para a doação.

Ademais, cabe analisar que embora existam grandes equipes médicas que realizam transplantes, as mesmas concentram-se nas regiões sul e sudeste do país. De acordo com Lúcio Pacheco, presidente da ABTO, enquanto em São Paulo há vinte equipes para realizar cirurgia de fígado, por exemplo, em outros estados como Mato Grosso, elas são escassas. Sob essa ótica, percebe-se que apenas algumas regiões brasileiras apresentam estruturas para efetivar o transporte de órgãos, visto que a disponibilidade de mão de obra médica é desigual e faltam incentivos governamentais para amenizar essa disparidade entre os territórios do Brasil.

Urge, portanto, uma observação crítica dos fatos, a fim de buscar medidas que aumentem o número de transplantes do país. Para isso, é essencial a ação do Ministério de Saúde, em parceria com a mídia televisiva - devido ao seu grande poder de alcance nacional -, divulgar propagandas educativas, sobre as etapas realizadas na doação de órgãos. Esse processo deve ser realizado para instigar o debate entre os familiares sobre o desejo do indivíduo em se tornar um doador. Além disso, cabe à ABTO, em parceria com a sociedade, realizar campanhas nas redes sociais reivindicando a necessidade de oferecer equipes médicas especializadas em regiões que não possuem, por meio de investimentos no setor de saúde pelo Governo, com o intuito de diminuir as disparidades de tratamento entre os pacientes. Assim, será possível atingir a cada ano um novo recorde de número de doadores no Brasil.