Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 03/10/2019

Na obra “Utopia”, do escritor inglês Thomas More, é retratada uma sociedade perfeita, na qual o corpo social padroniza-se pela ausência de conflitos e problemas. No entanto, o que se observa na realidade contemporânea é o oposto do que o autor prega, uma vez que os dilemas da doação de órgãos dificultam a concretização dos planos de More. Esse cenário antagônico é fruto tanto do desconhecimento a respeito da doação de órgãos ainda em vida, quanto dos impasses éticos enfrentados pelos familiares. Diante disso, torna-se fundamental a discussão desses aspectos, a fim do pleno funcionamento da sociedade.

Precipuamente, é fulcral pontuar que os obstáculos da doação de órgãos deriva da baixa atuação dos setores governamentais, no que concerne à criação de mecanismos que coíbam tais recorrências. Segundo o pensador Thomas Hobbes, o estado é responsável por garantir o bem-estar da população, entretanto, isso não ocorre no Brasil. Devido à falta de atuação das autoridades, no que tange a  educação, à população desconhece a possibilidade da doação de órgãos enquanto em vida, o que corrobora para o aumento no tempo de espera dos pacientes a mercê das doações de órgãos. Desse modo, faz-se mister a reformulação dessa postura estatal de forma urgente.

Ademais, é imperativo ressaltar a negação dos familiares como promotor do problema. De acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), 47% das famílias se recusam a doar órgãos de parente com morte cerebral. Partindo desse pressuposto, cabe pontuar como uma das causas desse cenário, o desconhecimento da irreversibilidade da morte encefálica. A morte encefálica é aquela que ocorre quando ausentes as funções neurológicas, com total irreversibilidade das funções do cérebro. No entanto, sem o conhecimento cientifico a respeito da morte encefálica, a família deposita esperanças na reversão desse quadro que, do ponto de vista científico, é inconvertível. Tudo isso retarda a resolução do empecilho, já que a rejeição dos familiares contribui para a perpetuação desse quadro deletério.

Assim, medidas exequíveis são necessárias para conter o avanço da problemática na sociedade brasileira. Dessarte, com o intuito de mitigar os dilemas da doação de órgãos, necessita-se, urgentemente, que o Tribunal de Contas da União direcione capital que, por intermédio do Ministério da Educação (MEC), será revertido em ensino sobre doação de órgãos, através de palestras ministradas por profissionais da saúde nas escolas, que abordem com o corpo social o quão é importante tornar-se doador de órgão, discutam a possibilidade de doar órgãos durante a vida e, também, esclareçam as famílias de pacientes diagnosticados por morte encefálica, a importância da autorização da doação dos órgãos do falecido para a vida de outro enfermo. Desse modo, a coletividade alcançará a Utopia de More.