Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 04/10/2019

O artigo quinto da atual Constituição federal garante a todos os brasileiros o direito à vida. Entretanto, no que tange a doação de órgão, essa garantia dada por lei ainda é pouco efetiva. Isso ocorre porque o transplante de órgão no país ainda é considerado, por muitas famílias, um tabu, pois para elas a morte não é considerada iminente. Tal fato é potencializado pela pouca repercussão das campanhas sazonais realizadas pelo Governo, devido ao seu foco não ser a eliminação dos medos que impedem a redução da significativa fila de espera de pessoas necessitadas de novos órgãos. Diante disso, é fundamental a promoção de mecanismos que fomentem o altruísmo e, destarte, elevem o número de doadores.

Primeiramente, é importante salientar o tamanho da atual lista de espera por transplante de órgãos no Brasil que, segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), era superior a 35000 pessoas até junho do ano vigente. Tais dados revelam um problema significativo enfrentado pela nação, e que é justificado pela descrença de muitas famílias no sistema. A explicação para isso está intimamente relacionada no fato dessas pessoas não gostarem de discutir sobre a morte ou devido a defesa de princípios pessoais que impedem de usar o corpo, ainda que morto, para determinados fins. Perante esse problema, é importante criar mecanismos que visem persuadir as famílias desacreditadas no sistema de doação em questão para que muitas vidas sejam salvas.

Ademais, mesmo que o Poder Executivo tenha se empenhado para divulgar algumas campanhas de conscientização à doação de órgãos, esses instrumentos não têm sido efetivos. Isso ocorre porque as propagandas não são suficientemente persuasivas para sensibilizar os interlocutores à agirem com empatia - virtude defendida pelo atual filósofo australiano Roman Krznaric como o antídoto contra o individualismo. Assim, estimular as pessoas a terem compaixão é um caminho para que a relações sociais sejam aumentadas, o egoísmo diminuído e, por fim, o número de doadores cresça.

Portanto, uma vez que o dilema enfrentado na doação de órgãos no país é um problema ainda significativo, é necessário que medidas sejam tomadas para reverter essa situação. Para que isso ocorra, o Governo, em parceria com o Ministério da Saúde, deve investir na formulação de campanhas que visem sensibilizar os brasileiros quanto a doação de órgãos e que contenham depoimento de pessoas que foram beneficiadas com o sistema - mostrando que a iminência da morte pode repercutir em vida para outros indivíduos. Tal ação deve ser divulgada nas mídias sociais relevantes e mediante divulgação em programas de TV de horário nobre, visando estimular um grande contingente de pessoas a aderirem o sistema brasileiro de transferência de órgãos. Feito isso, os tabus quanto à prática da referente ação solidária serão mitigados e, portanto, mais vidas poderão ser resgatadas.