Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 04/10/2019

Sob a perspectiva histórica, a Revolta da Vacina, em 1904, fora causada pela forma truculenta dos agentes de saúde em suas abordagens, o que dificultava o entendimento da população sobre a importância da vacinação. Nessa óptica histórico-social, a reconstrução dessa circunstância, a qual os indivíduos recusam práticas de manutenção da vida humana, sucede-se pela carência de informações oferecidas a população e pelo despreparo das equipes hospitalares. A partir disso, observa-se as políticas públicas educacionais como medidas preferíveis frente aos obstáculos da doação de órgãos.

Nesse contexto, o escritor George Orwell, em sua obra “1984”, concebe a linguagem como principal influenciadora do comportamento de um corpo social. Por esse panorama, o processo de concessão das estruturas humanas deve gozar de uma atenção humanizada para a família, já que essa instituição é responsável pela palavra final no procedimento e, muitas vezes, encontra-se em luto devido a perda de um familiar. Dessa maneira, métodos insensíveis de aproximação da equipe de transplantes podem alimentar ideias infundadas, como a crença de que o corpo será tratado como carne animal em um açougue, as quais resultam na negação dos familiares ao processo.

Ademais, segundo o estudo da Escola Paulista de Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo, em 2015, 21% das recusas a concessão das peças do organismo humano fundamentam-se na incompreensão dos parentes sobre o conceito de morte encefálica, e outros 19% responsabilizam a forma mecânica de abordagem da equipe hospitalar. Mediante a esses dados, observa-se um contexto análogo ao da Revolta da Vacina, em que a falta de informação da população aliada a uma aproximação truculenta prejudicam a efetuação de condutas garantidoras do bem-estar humano. Dessa forma, o desperdício de fragmentos humanos por falhas educacionais, as quais poderiam ser atenuadas, não é razoável.

Portanto, é dever do Estado agir no sentido de remediar o desaproveitamento de componentes humanos, os quais poderiam auxiliar diretamente na melhoria de diversas vidas no Brasil. Sendo assim, cabe ao Ministério da Saúde elaborar e executar uma campanha nacional informativa sobre a doação de órgãos contempladora de propagandas nos canais televisivos e digitais, distribuição de panfletos sobre o procedimento e manuais pedagógicos para os profissionais de transplantes sobre como realizar a abordagem nas famílias por meio de investimentos orçamentários na Secretaria de Comunicação Social e na Secretaria de Gestão Hospitalar. Dessa modo, tem-se o intuito de mitigar o despreparo dos dirigentes e a escassez de conhecimento da população sobre esse sistema e, por conseguinte, atenuar os obstáculos na transferência de peças humanas.