Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 09/10/2019

Na obra “A lição de anatomia do Dr. Tulp”, o artista Rembrandt retratou o fascínio pelo desconhecido corpo humano. No Renascimento, época contemporânea à obra, as revoluções científicas ajudavam a sociedade a se libertar da ignorância sobre a realidade circundante. De forma análoga, a doação de órgãos no Brasil precisa externalizar-se para o conhecimento da população, haja vista o seu maior dilema ser a recusa das famílias, desconhecedoras do processo de doação. Isso ocorre, sobretudo, devido à inoperância estatal em garantir a mentalidade empática necessária e ao empecilho de favorecer a decisão familiar em detrimento da do indivíduo quando em vida.

Em primeiro lugar, é importante notar que a precarização do cenário de doação de órgãos no país é intrínseco à ausência de alteridade. Nesse sentido, em um contexto de hipermodernidade, conforme citou o sociólogo Gilles Lipovetsky, os fúteis valores modernos são supervalorizados, pondo em xeque ideais humanistas, como a empatia. Dessa forma, tendo em vista a ausência de uma mentalidade solidária, o Governo age com descaso ao não propagar e incentivar a educação necessária sobre o tema. Assim, cerca de 40% das famílias, consoante o Nexo Jornal, recusam a doação de órgãos dos seus entes falecidos, posto que se encontram sem conhecimento do diagnóstico de morte encefálica e das repercussões de uma doação.

Ademais, cabe analisar como a Lei de Doação de Órgãos despreza ação preventiva acerca do processo de doação. Embora o número de doações tenha aumentando sessenta por cento, segundo o jornal Folha de São Paulo, a relação entre receptores e doadores é desprezível. Nesse contexto, ainda que o indivíduo documente que deseja ser doador, a família, na hora do falecimento, é quem tem total decisão, fato que impede um maior número de doadores, já que a decisão é feita em momento triste e delicado, em geral sob pressão. Destarte, faz-se necessária uma reformulação da lei sob a ótica da prevenção, na qual a decisão do indivíduo em vida prevaleça.

Portanto, os dilemas da doação de órgãos jazem no descaso governamental e legislativo. Sendo assim, com o intuito de aumentar o número de doações e atenuar os dilemas, cabe ao Ministério da Saúde, em parceria com o Google Play e o Poder Legislativo, documentar a decisão dos brasileiros antes de uma possível morte, por meio de emenda que mude a lei atual, priorizando a decisão do indivíduo em detrimento da familiar. Além disso, por intermédio da criação de um aplicativo pela plataforma e o governo, os brasileiros deverão, a partir dos 16 anos de idade, retratar sua decisão de ser doador ou não. Com isso, um Cadastro Nacional será criado, facilitando o trabalho dos profissionais de saúde. Quiçá, tal hiato reverter-se-á da mesma forma que o Renascimento libertou o conhecimento.