Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 22/10/2019
Segundo o filósofo inglês John Locke, o Estado deve, por meio de um contrato social, garantir à sociedade os direitos básicos, como a vida e o bem-estar social. Entretanto, quando se observa o cenário brasileiro de doação de órgãos, percebe-se que a ideia de Locke é refutada, tendo em vista que muitas pessoas morrem na fila de espera de um doador por conta de questões governamentais e educacionais. Assim, faz-se imprescindível não somente uma análise dessas causas, como também das possíveis soluções para combater o impasse.
De acordo com Norberto Bobbio, filósofo italiano, a dignidade humana é uma virtude pertencente ao ser humano e, por isso, o direito ao respeito e à consideração lhe é cabível por parte do Estado. Conquanto, é evidente que o poder público não leva em consideração a vida de pacientes que necessitam de doações de órgãos, visto que ele não informa a população sobre a funcionalidade dos procedimentos nem promove campanhas de incentivo para tal ação. Dessa forma, essa atitude permite a permanência do quadro atual, em que, de acordo com o jornal O Globo, as famílias não autorizam a doação em cerca de 50% dos casos, justamente por desconhecerem o sistema e , consequentemente, duvidarem de sua segurança.
Além disso, é fundamental compreender os efeitos da impassibilidade do corpo educacional perante o impasse. Sob a perspectiva do sociólogo brasileiro Betinho, o desenvolvimento humano só vai ser efetivado quando a sociedade civil afirmar estes 5 pontos cruciais: igualdade, diversidade, participação, solidariedade e liberdade. Todavia, é fácil perceber que, na prática, o cenário idealizado pelo pensador se torna utópico, haja vista que a falta do ensino escolar sobre a importância de se doar os órgãos atrasa a realização da total solidariedade entre os indivíduos, o que permite que os doentes esperem , esperançosamente, por um doador que nunca virá. Logo, é inadmissível que essa situação perdure.
Em suma, percebe-se que medidas são necessárias para solucionar o óbice. Portanto, para resolver a desinformação populacional, é preciso que o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, mediante propagandas em meios de comunicação de massa, esclareça o processo de doação, informando como deve ser feito e o que é necessário para tal ação, além disso, é preciso, também, que ele promova campanhas que sensibilizem as pessoas a doarem. Cabe, ademais, às escolas, por meio de palestras, demostrar o funcionamento dos transplantes, como também exibir aos pais e aos alunos o quadro geral do problema, com o fito de criar neles a empatia e a condolência necessária para que eles possam se tornar doadores. Espera-se, com essas ações, que o contrato social de Locke possa ser concretizado, de forma plena, na sociedade contemporânea.