Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 18/10/2019

O filme A Cinco Passos de Você, lançado em 2019, exterioriza a realidade de uma personagem com fibrose cística que passou grande parte da sua vida hospitalizada e, só depois de muito tempo conseguiu um transplante pulmonar. Fora da ficção, é fato que, apesar do Brasil se destacar no contexto mundial de doação de órgãos, ainda há muitos obstáculos. Isso ocorre, infelizmente, devido não só à falta de informação sobre o processo, mas também ao individualismo que influencia diretamente no não cumprimento da meta da ABTO.

Convém ressaltar, a princípio, que a escassez de conhecimento acerca dos procedimentos de doação tais como quais órgãos podem ser transplantados, a segurança e a diligência tanto com o receptor quanto com o doador é uma das principais causas de tal problemática. Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil registrou recorde de doadores de órgãos, com 1662 doadores no primeiro semestre de 2017. Embora isso, a recusa das famílias em autorizar os transplantes ainda é alta, uma vez que há uma série de mitos relacionados a doação, que afastam grande parte da população de realizar esse gesto de extrema importância e generosidade. Prova disso, é a interferência religiosa que por causa da falta de esclarecimento das suas doutrinas, limitam os fiéis a não auxiliarem na recuperação e tratamento de muitas pessoas.

Ademais, o forte individualismo presente na sociedade contemporânea fortalece cada vez mais a insuficiência de órgãos a serem transplantados. Consoante a isso, segundo Zygmunt Bauman, sociólogo humanista, o isolamento social enfraquece a solidariedade e incentiva a falta de empatia. Destarte, efetivamente a população tornou-se insensível em relação a dor do outro e, a apatia individual e familiar, que segundo a legislação brasileira é a responsável por autorizar a doação, resulta em consequências que atingem muitos cidadãos que dependem do outro para dar continuidade a vida. Como por exemplo, a morte e o sofrimento de milhares de famílias todos os anos, posto que de acordo com a ABTO, no início de 2018,  mais de mil pessoas morreram na espera.

Infere-se, portanto, que é imprescindível solucionar esse problema. Para isso, com o intuito de esclarecer o processo de doação, é importante que o Ministério da Saúde crie campanhas de divulgação de informações sobre o transplante de órgãos no Brasil, por meio de propagandas nas mídias como televisão, rádio e redes sociais visando atingir e comunicar o máximo de indivíduos. Além disso, compete ao âmbito escolar realizar palestras e projetos que abordem tal tema, destinando-se a desconstruir os mitos e as aversões, bem como incentivar a empatia e sujeitos dispostos a mudar esse cenário. Nessa perspectiva, como preceitua Sartre, uma ação individual é responsável pelo mundo.