Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 11/10/2019

Em 1954, o médico Joseph Edward Murray realizou o primeiro transplante de órgão vital, que lhe garantiu o Prêmio Nobel de Medicina.  Entretanto, a substancial parcela dos brasileiros se mostra indiferente à conquista de Murray, de modo que não há cultura de doadores no Brasil. Assim, para modificar esse problema, a desinformação da sociedade e a omissão do Estado devem ser desconstruídos.

Em primeiro plano, a falta de conhecimento inviabiliza as doações viscerais. Nesse sentido, a morte encefálica - quadro clínico definitivo - consiste na perda total e irreparável das funções cerebrais, que deve ser aferida por dois médicos capacitados. Não obstante, muitas famílias, no momento da dor em função da perda de um parente, são incapazes de compreender a morte encefálica e nutrem a falsa expectativa de que o paciente voltará à vida, o que representa grave obstáculo à doação dos seus órgãos. Todavia, não é razoável que a falta de informação a respeito da falência cerebral dê lugar a filas de transplante cada vez maiores.

De outra parte, em 1968 foi promulgada a primeira lei que estabeleceu a doação consentida, segundo a qual a decisão final estaria sob a responsabilidade exclusiva da família. Ocorre que são insuficientes e ineficazes as ações do Estado em incentivar o consentimento familiar, previsto desde 1958 e sem o qual haverá cada vez mais prejuízos àqueles que dependem de órgãos e, consequentemente, a saúde pública será fragilizada. Dessa maneira, enquanto não houver efetivas campanhas, aqueles que depender da doação serão obrigados a conviver com esta triste realidade: a constante espera por um transplantes.

Para incentivar, portanto, a prática sólida das doações, o Ministério da Saúde no exercício de seu papel social, deve ensinar a população o que é a morte encefálica, por meio da veiculação de conteúdos nas mídias sociais e televisivas, como fotos e vídeos capazes de mostrar a perda das funções cerebrais é irreparável. Inclusive, essa orientação teria a finalidade de motivar as famílias brasileiras a consentir na doação de órgãos e tecidos, de modo que, no Brasil, Edward Murray tenha a sua conquista valorizada.