Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 12/10/2019

O século XXI está marcado por diversas transformações políticas, econômicas e sociais. Com os avanços da medicina, algumas doenças antes irreparáveis, hoje podem ser superadas através do transplante de órgãos. O país possui local de destaque na realização desse tipo de procedimento, sendo considerado o 2º país do mundo com o maior número de cirurgias. Contudo, apesar do enorme destaque, muitas pessoas aguardam por um órgão  em filas intermináveis, sendo o número de doadores inferior ao de indivíduos que necessitam de transplante. Tal fato é decorrente ao preconceito e a falta de informação de muitas famílias, que se recusam a doar os tecidos de seus entes. Além do individualismo presente na sociedade contemporânea.

Em primeira instância, vivemos a era da individualidade, o qual o cuidado com o outro e substituído pelo cuidado consigo mesmo, diluindo as relações. Segundo o filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman, em seu livro “Modernidade Líquida”, atualmente, vivemos em uma sociedade o qual as relações não são feitas para durar, e os indivíduos pensam somente em si mesmos e o individualismo permeia as relações. Decerto, essa fluidez faz com que muitas pessoas não pensem no outro que necessita de um órgão, ignorando as necessidades exteriores.

Outrossim, a falta de conhecimento e o preconceito impedem que a famílias autorize a doação de órgãos de seus entes, mesmo que estes tenham autorizado em vida. Ademais, o medo de ter seu parente diagnosticado em morte encefálica erroneamente para que seus tecidos possam ser doados contribuem para a dificuldade em se autorizar a doação. Destarte, vivemos em um país cristão, o qual a religiosidade permeia as laços sociais. Dessa forma, a crença pelo impossível e o apego exacerbado pela fé favorecem na recusa dos transplantes.

Portanto, é necessário a conscientização da população quanto os benefícios da doação de órgãos e os aspectos religiosos envolvidos. Para isso, é imprescindível que Ministério da Saúde em parceria com o Ministério da Educação e as Igrejas realizem campanhas educativas nas escolas, centros religiosos e em praças públicas divulgado e desmistificando o transplante de tecidos. Isso ocorrerá por meio de núcleos de debates envolvendo agentes da saúde, educadores e entidades religiosas, retirando as dúvidas da população, explicando como é realizado o diagnóstico de morte encefálica e os aspectos religiosos envolvidos. Além disso, serão distribuídas cartilhas informativas e o cadastramento de doadores, para que em caso de morte encefálica os membros da família sejam informados sobre a doação. Ademais, os familiares dos doadores terão acompanhamento psicológico gratuito por 1 ano para conseguirem lidar com a dor da perda de um ente querido.