Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 19/10/2019

A série médica ‘‘Grey’s Anatomy’’ retrata em um de seus episódios a protagonista Meredith Grey que doa uma parte de seu fígado para seu pai Thatcher que estava com falência do órgão. Grey, mesmo não possuindo uma boa relação com seu pai, salvou a vida dele. Apesar do caráter ficcional da série, a temática da doação de órgãos e suas dificuldades, envolvendo as famílias enlutadas e ao mesmo tempo pessoas necessitadas, precisa ser discutida no Brasil hodiernamente.

Em primeira análise, de acordo com o escritor Franz Kafka, ‘‘a solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana’’. Dessa forma, uma das atitudes mais solidárias entre os seres humanos é o processo de transplante de órgãos, que consiste em um procedimento cirúrgico que repõe um órgão ou tecido de uma pessoa doente (receptor) por outro órgão ou tecido normal de um doador vivo ou morto. Além disso, a doação de sangue, rim, parte do fígado e medula óssea podem ser feitos em vida, podendo beneficiar muitas pessoas. Outrossim, no contexto atual, cerca de 96% dos procedimentos de todo país são financiados pelo SUS, incluindo exames preparatórios, cirurgia e acompanhamento pós transplante segundo o Ministério da Saúde.

Em segunda instância, cabe ressalvar que o principal procedimento de doação com o doador em óbito é o caso de morte encefálica, ou seja, parada irreversível das funções do cérebro, geralmente vítimas de traumatismo craniano ou derrame cerebral. Ademais há de se considerar que a doação é feita somente com o consentimento familiar, como previsto na legislação brasileira. Logo, na situação descrita, muitas famílias apresentam-se receosas pelo fato de acreditarem que o paciente ainda pode voltar a vida, limitando os procedimentos.

Nesse contexto, destaca-se o fato de que apesar de ser um gesto nobre de solidariedade e empatia, a doação de órgãos, na prática, possui seus entraves, pois, de acordo com os dados da Associação Brasileira de Transplante de órgãos, mais de 30 mil pacientes estão na fila de espera por um órgão. Isso ocorre principalmente pela ausência de informações e comunicação entre as famílias e os profissionais, resultando em grande parte da população ignorante em tal questão.

Destarte, para mitigar o problema da escassez de doadores, cabe ao Ministério da Saúde em conjunto com a Mídia realizar campanhas direcionadas a conscientização da população, com objetivo de romper com o tabu da morte e incentivar a doação. Dessa maneira, tornarão possível o diálogo entre familiares sobre a doação de órgãos e repensar a perspectiva dolorosa em relação a decisão, convertendo-a em solidariedade e sequência de vida, atingindo o ápice da dignidade humana citada por Franz Kafka.