Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 14/10/2019

A doação de órgãos ou de tecidos é um ato pelo qual manifesta-se a intenção de doar uma ou mais partes do corpo para ajudar no tratamento de outras pessoas. A doação pode ser de órgãos (rim, fígado, coração, pâncreas e pulmão) ou de tecidos (córnea, pele, ossos, válvulas cardíacas, cartilagem, medula óssea e sangue de cordão umbilical). A doação de órgãos como o rim, parte do fígado e da medula óssea pode ser feita em vida. Já a doação de órgãos de pessoas falecidas só pode ser realizada após a confirmação do diagnóstico de morte encefálica. Apesar de o Brasil ser o segundo país na classificação mundial de doação de órgãos e de tecidos, a meta de doadores efetivos estipulada pela ABTO (Associação Brasileira de Transplante de Órgãos) ainda não foi alcançada.

Nesse cenário, a demanda por transplantes continua superando o número de doações por dois motivos interligados: a falta de conhecimento sobre o assunto, que o transforma em um tabu, e o individualismo inerente à sociedade contemporânea, na qual, muitas vezes, não há espaço para atos de altruísmo como esse. De acordo com o filósofo Zygmunt Bauman, as principais características da modernidade líquida são a substituição da ideia de coletividade e de solidariedade pelo individualismo. Reflexo disso são os mais de 30 mil pacientes listados no Cadastro Técnico Único (CTU), conhecido como a “fila de transplantes”, que aguardam por uma segunda chance de vida.

Sob essa óptica, nota-se que um dos obstáculos encontrados para a diminuição da fila de transplantes é a negativa à doação de órgãos e tecidos pelas famílias de potenciais doadores, ou seja, daquelas pessoas que foram diagnosticadas com morte cerebral. Segundo dados da ABTO, 47% das famílias ainda se recusam a doar os órgãos de parentes com danos irreversíveis ao encéfalo. Esse dado revela que há uma desinformação generalizada acerca das regras, do protocolo e das formas de doação, além de um desconhecimento sobre a importância desse ato. Assim, perpetua-se o cenário de défice entre potenciais doadores e pacientes que necessitam de doações para sobreviverem.

Dessa forma, é necessário um maior esforço conjunto entre Ministério da Saúde e Ministério da Educação, a partir de campanhas de divulgação de informações sobre o transplante de órgãos no Brasil e da abordagem do tema em escolas, com o intuito de desconstruir os mitos e as aversões em relação ao assunto, bem como incentivar a empatia e o altruísmo. Além disso, os Conselhos Federais de Medicina, de Psicologia e de Enfermagem devem promover cursos de atualização que visem formar profissionais mais bem preparados para a abordagem do tema com as famílias de doadores em potencial.