Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 16/10/2019

Em 1997 se estabeleceu à primeira política de transplante no Brasil. Hoje, o país é referência mundial nessa área e possui o maior sistema público de transplantes do mundo. Em números absolutos, o Estado brasileiro é o 2º maior transplantador do planeta, de acordo com o Ministério da Saúde. No entanto, esse cenário não reflete à cultura de doação de órgãos no país, uma vez que os transplantes só ocorrem por meio da disponibilidade dessas contribuições, que seguem um descompasso preocupante entre oferta e a demanda. Essa construção cultural negativa sobre o processo de doação é atrelada à falta de informação e à descrença da família no procedimento de retirada.

De início, vale ressaltar que o maior impasse dessa problemática está na falta de conhecimento sobre o diagnóstico. A regulamentação das doações especifica como doador apto o indivíduo que teve morte encefálica, resultado da falência de todas as suas funções cerebrais. Nesse estágio, o paciente já é declarado morto cientificamente, mas, é mantido funcionando artificialmente na UTI, com o coração batendo até o falecimento do organismo. Nesse intervalo ocorre uma conversa com a família sobre a possibilidade de salvar outras vidas por meio dos órgãos do falecido, todavia, na fantasia dos familiares ele ainda é percebido como vivo e essa falta de compreensão do estado clínico gera um impasse na captação desses órgãos para transplantes futuros.

Cabe ainda, nessa mesma perspectiva, destacar que a visão cultural que a sociedade constrói sobre o método de retirada desses órgãos é determinante para a recusa das doações. De acordo com o vice-presidente da Organização de Procura de Órgãos de São Paulo (OPO-SP), Edvaldo Leal, os familiares acreditam que o paciente possa sofrer uma desfiguração e perder a integridade física corporal. Assim sendo, a família, que é a detentora jurídica do corpo, cultua a doação como uma mutilação e não como um ato cirúrgico, sem sequelas físicas para o indivíduo.

Fica evidente, portanto, que os desafios são culturais e precisam ser desconstruídos. Logo, o Ministério da Cultura deve criar parcerias com os veículos de comunicação, a fim de promover propagandas diárias que informem à importância das doações e como o diagnóstico de morte encefálica é irreversível, além de desmistificar a técnica de captação dos órgãos como mutiladora. Assim, portados dessas informações os debates serão gerados no âmbito familiar promovendo o ideário de doação na sociedade. Ademais, o Ministério da Saúde precisa investir na Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos com o fito de melhorar à capacitação dos profissionais responsáveis, por meio da aplicação  de cursos e palestras que visem humanizar a relação entre a família e o profissional da saúde. Dessa maneira, poderá haver um equilíbrio entre a oferta e a demanda, a doação e o transplante.