Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 20/10/2019

Ser ou não ser, eis a questão. A máxima existencialista de Hamlet foi usada por Shakespeare, séculos atrás, para retratar o dilema entre vida e morte. De forma análoga à obra, no Brasil hodierno, milhões de cidadãos encontram-se na mesma situação no tocante a um dos maiores entraves da saúde pública do país: a doação de órgãos. Emerge, portanto, a urgência de se compreender os aspectos culturais e éticos que influenciam na escolha de salvar ou não uma vida, a fim de solucioná-los.

Diante disso, vale ressaltar os impactos da forma pejorativa sob a qual a doação de órgãos ainda é enxergada pela sociedade atual. Isso ocorre porque, seja movido por preceitos religiosos, seja por desconhecimento, o povo brasileiro ainda não foi capaz de se desvencilhar de seus “tabus”. Nesse contexto, a insuficiência na conscientização acerca da importância da doação vai de encontro à própria Constituição Federal, que garante o direito à vida e saúde pública.

Contudo, há de se frisar que o mesmo aparato jurídico também prevê o direito à liberdade, catalisando o conflito ético. Com efeito, a possibilidade de tornar-se, ou não, doador, produz no indivíduo um grau de responsabilidade sobre outrem e com isso, a angústia, como sintetizado por Sartre. Todavia, faz-se necessário reforçar que os índices de doadores são expressivamente menores do que de pacientes na fila de espera (MS). Dessa forma, a questão da doação deixa de pertencer somente à esfera privada e passa a clamar por medidas públicas que a solucionem.

Em virtude disso, é notório a necessidade de ações conjuntas que visem auxiliar o povo brasileiro no dilema da doação de órgãos. Aos grandes veículos midiáticos, é cabível ressignificar a imagem da doação de órgãos, retratando em novelas e comerciais a realidade das famílias que anseiam por isso. É necessário também, com apoio do poder legislativo, restituir a obrigatoriedade da cessão dos órgãos de pessoas falecidas, exceto sob justificativa, a fim de aumentar o número de doadores. Assim, à medida que se opta pelo “ser”, poder-se-á enfim promover o bem comum.