Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 20/10/2019

Desde o iluminismo, entende-se que uma sociedade só progride quando um se mobiliza com o problema do outro. No entanto, quando se observa os baixos percentuais de doação de órgãos no Brasil, atualmente, verifica-se que esse ideal iluminista é constado na teoria e não realizado na prática. Dessa forma, a problemática persiste intrinsecamente ligada ao país, seja pelo assunto ainda ser tratado como tabu entre as famílias, seja pela falta de solidariedade da população.

Precipuamente, é indubitável que a maneira como as famílias tratam o assunto sobre doação de órgãos como tabu impulsiona o problema. De acordo com Durkheim, o fato social é uma maneira coletiva de agir e pensar, dotada de exterioridade, generalidade e coercitividade. Seguindo essa linha de pensamento, fica evidente que o fato das famílias não conversarem sobre o que será feito com os órgãos após a morte torna a decisão mais difícil, uma vez que os membros acabam tento que pensar e tomar essa decisão somente depois o óbito, em um momento em que estão emocionalmente abalados, o que, muitas vezes, faz com que o indivíduo negue a doação dos órgãos, por ainda não aceitar o falecimento do familiar e não conseguir enxergar que pode ajudar outras pessoas através disso.

Outrossim, destaca-se a falta de solidariedade da população entre as causas do problema. Consoante ao sociólogo polonês Zygmunt Bauman, a falta solidez nas relações sociais é característica da ‘‘modernidade líquida’’ vivida no século XXI. Diante de tal contexto é notório que o individualismo dificulta a doação de órgãos no país, haja vista que muitas pessoas não percebem a importância de ser um doador até que elas ou algum ente querido precise de um transplante, o que poderia ser diferente se a sociedade busca-se sempre o bem coletivo e não só quando é de interesse próprio.

Infere-se, portanto, que medidas são necessárias para que o ideal iluminista se concretize e a sociedade progrida. Logo, o Tribunal de Contas da União deve direcionar capital que, por intermédio do Ministério da Saúde, será revertido em campanhas, para trazer o debate da importância da doação de órgãos, a fim de que o povo se desprenda de tabus e entenda a necessidade da discussão do tema no ambiente familiar. Ademais, segundo Immanuel Kant, ‘‘é no problema da educação que se assenta o grande segredo do aperfeiçoamento da humanidade’’. Sendo assim,  o Ministério da Educação deve trazer assuntos como o dilema da doação de órgãos para o ambiente escolar com a finalidade de moldar cidadãos conscientes e solidários.