Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 21/10/2019

Graças a evolução tecnocientífica da medicina nas últimas décadas, a cirurgia de transplante foi aprimorada e o número de órgãos e tecidos possíveis de serem repostos aumentou. Tal procedimento é imprescindível para salvar a vida de milhares de pessoas. Contudo, a falta de conhecimento, que resulta em egoísmo e preconceito, é o maior obstáculo enfrentado pelos profissionais da saúde. Por certo, a conscientização e a solidariedade da população são essenciais para melhorar tal quadro.

Primeiramente, é importante notar que o individualismo, marca da modernidade, explicita a falta de solidariedade enraizada na sociedade. Segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, o indivíduo moderno é dissociado do senso coletivo, presente na antiguidade. Sendo assim, com o estreitamento dos laços intersociais, o indivíduo não vê razão em doar seus órgãos para alguém que sequer conhece e tampouco pensa nas consequências indiretas que essa atitude gera, ou seja, o falecimento de cidadãos que precisam de ajuda. Tal cenário individualista é inerente aos seres humanos hodiernos e o sistema educacional carece de soluções para modificá-lo.

Nesse contexto, a apatia com o transplante é intensificada pela falta de informação de boa parte das população. De acordo com a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos, quase metade das famílias nega a cirurgia a seus falecidos parentes. Esse contexto só é possível devido à uma lacuna de dados e verdades científicas em sua formação escolar. Tais famílias ainda carregam o medo do tráfico de órgãos e o tabu de utilizar partes do corpo de um ente querido como simples peças de reposição. Esse panorama pode ser revertido e, como aponta o Ministério da Saúde, já apresenta avanços, haja vista que o número de transplantes cresceu mais de 60% dentre 2004 e 2014 devido ao intenso trabalho de divulgação dos órgãos da saúde.

Assim, é nítido que a falta de consciência coletiva e informação científica são os principais fatores para a decisão do transplante. Logo, urge ao Ministério da Educação, por meio de revisões na Base Nacional Curricular Comum, incluir, nas competências específicas de ciências da natureza, o aprofundamento dos estudo sobre processos cirúrgicos e legais para a doação de órgãos no Brasil visando, enfim, conscientizar os brasileiros desde a formação colegial. É dessa forma que será possível construir uma sociedade cada vez mais altruísta e salvar mais cidadãos brasileiros, que compartilham de um direito universal comum: a vida.