Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 24/10/2019

A série brasileira Sob Pressão, produzida pela Rede Globo, tematiza os dramas vivenciados por médicos e pacientes no Sistema Único de Saúde (SUS). Em um de seus episódios, os familiares de um paciente recusam-se a ceder os órgãos deste para doação. Fora da ficção, no Brasil hodierno, um grande contingente de famílias vive o dilema: doar o não doar os órgãos de seus entes falecidos? Essa conjuntura é agravada pela falta de informações claras do estado acerca do processo de doação aliada ao individualismo arraigado no tecido social.

Primordialmente, convém destacar que a Constituição Federal atribui ao Estado a função de prover saúde para todos os cidadãos. Entretanto, essa instituição social restruge esse direito básico uma vez que cerca de 30 mil pessoas estão à espera de um novo órgão. Esse fato, divulgado pelo Ministério da Saúde, tem como causa fulcral a omissão estatal em esclarecer a população sobre o processo de doação. Dessa forma, o Poder Público contribui para a perpetuação de mitos a respeito do assunto o que torna diminuto o número de doações.

Outrossim, também é válido salientar que o individualismo estabelecido na sociedade contribui para a decisão de não doar. Nesse contexto, o filósofo Zygmunt Bauman, em sua obra Modernidade Líquida, afirma que no cenário contemporâneo o imediatismo e o individualismo dificultam atos altruístas. Nesse sentido, segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), 43% dos familiares não autorizam a retirada de partes do corpo de seus parentes falecidos para transplantes. Assim, essa atitude egoísta aumenta o tempo de espera daqueles que aguardam na fila de transplantes e o que ocasiona a morte de diversos cidadãos.

Dessarte, são necessárias medidas que mitiguem os obstáculos para a resolução do problema. Portanto, é indispensável que o Ministério da Saúde informe a população sobre o processo de doação de órgãos. Isso deverá ser feito por meio de campanhas publicitárias veiculadas nas grandes mídias com a finalidade de elucidar os cidadãos acerca dos mitos que cercam a temática. Assim, será mais fácil para os familiares optarem por doar os órgãos de seus parentes. Além disso, é imprescindível combater os efeitos do individualismo que impede a oferta de órgãos. Para isso, o Ministério da Educação (MEC), deve promover nas escolas atividades lúdicas para crianças e jovens a fim de que estes encorajem seus familiares a se tornarem doadores. Somente assim, o dilema doar ou não terá uma resposta positiva e situações como as de Sob Pressão estarão presentes apenas na ficção.