Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 25/10/2019
A Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) afirma que 43% das famílias brasileiras se recusam a participar da doação. Nesse sentido, é inegável que um dos principais dilemas para a efetivação do transplante é a recusa familiar, pautada pela ausência de empatia no momento da perda. Sob essa perspectiva, é necessário analisar a cultura do individualismo e o despreparo dos funcionários da saúde ao abordar sobre a questão da doação de órgãos .Portanto, faz-se mister a construção de uma sociedade mais solidária e informada, por meio da educação.
Em primeiro plano, o individualismo presente na sociedade contemporânea inviabiliza o sucesso da disseminação de uma cultura a favor do transplante de órgãos, isso porque, existe um forte sentimento de fragmentação na sociedade, bem como a inexistência de uma conduta altruísta. Posto isso, o conceito de modernidade líquida ,do filósofo Zygmunt Bauman, ilustra a ruína da coletividade, reverberada pela liquidez das relações sociais. Dessa forma, é evidente que para alcançar o sucesso das políticas de transplantes o caráter líquido presente nas relações interpessoais deve ser superado.
Outrossim, o momento do óbito de um familiar é uma situação extremamente delicada que requer uma articulação empática e objetiva do profissional da saúde ao abordar sobre a possibilidade de um transplante de órgãos. Assim, é necessário que o diálogo seja claro e desprovido de termos técnicos incompreensíveis aos leigos. Ademais, o princípio da maior felicidade do filósofo John Stuart Mill que versa sobre a necessidade de uma ação ser norteada a fim de maximizar a felicidade para um maior número de pessoas deve ser usado como estratégia argumentativa para sensibilizar a família do doador. Desse modo, garante-se a eficácia da comunicação e a percepção de que uma vida pode salvar muitas outras, mediante o transplante.
Em suma, a alta taxa de recusa familiar acerca da doação de órgãos é um reflexo do individualismo e da precária comunicação dos profissionais da saúde. Dessarte,cabe ao Ministério da Educação estabelecer a discussão sobre o transplante de órgãos nas escolas, desde o ensino primário, por meio palestras que demonstrem a relevância do tema e sua contribuição para a sociedade, com vistas a mitigar a visão individualista e fomentar uma cultura a favor da doação.Em adição, os Conselhos Regionais das áreas da saúde devem promover a capacitação de seus funcionários, por meio de cursos cujo foco seja na empatia e no desenvolvimento de uma linguagem acessível, com o fito de aprimorar a comunicação.Logo, ter-se-á uma melhor adesão da população à política de doação de órgãos.