Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 25/10/2019

O escritor Franz Krafka afirmava que ‘‘a solidariedade é o sentimento que melhor expressa o  respeito pela dignidade humana’’. Nesse viés, observa-se a importância de atos solidários para a construção de uma sociedade mais respeitosa. Entretanto, no Brasil, alguns desses atos encontram entraves à sua execução, como a doação de órgãos. Nessa perspectiva, tem-se como potencializadores do problema a recusa familiar em permitir a doação, bem como o déficit na distribuição espacial de equipes capacitadas para o procedimento, sendo necessárias ações que visem a mitigar essa problemática.

É importante pontuar, de início, que o principal entrave à doação de órgãos no Brasil é a recusa dos familiares em autorizarem o procedimento. Esse fato é evidenciado por dados do Ministério da Saúde, que apontou, em 2018, uma recusa de 43% das famílias de potenciais doadores. Isso se deve, sobretudo, ao desconhecimento familiar acerca da morte encefálica, a qual possibilita que órgãos continuem exercendo sua função, por certo tempo, mesmo após a interrupção das atividades cerebrais. Desse modo, os familiares de falecidos por morte encefálica acreditam que ainda é possível a sobrevivencia de seu ente e não permitem a doação dos órgãos em tempo hábil à sua utilização. Assim, a recusa familiar em permitir a doação, gerada pelo desconhecimento quanto às questões fisiológicas sobre a morte, tem sido um entrave à resolução do problema.

Outrossim, a má distribuição, ao longo do território nacional, de equipes capacitadas ao procedimento é outro obstáculo à doação de órgãos no país. Esse cenário é evidenciado pela concentração de 53% dos centros de transplantes na região sudeste, segundo dados do Ministério da Saúde. Como consequência disso, ocorre uma distribuição deficitária de equipes de transplante ao longo da extensão territorial brasileira, fazendo com que doações advindas de locais distantes dos grandes centros urbanos sejam dificultadas devido à falta de infraestrutura. Assim sendo, a desigualdade na distribuição de equipes capacitadas tem impedido a expansão da doação de órgãos no Brasil.

Frente ao exposto, fica evidente a necessidade de mitigar essa problemática no país. Para isso, é imprescindível que o Ministério da Saúde capacite juntas médicas a conversarem com familiares de falecidos por morte encefálica, oferecendo a tais equipes cursos de capacitação que incentivem esses médicos a adotarem uma abordagem mais humanizada a essas familias, explicitando questões acerca da morte cerebral, a fim de que se reduza o número de recusa da família quanto à doação. Ademais, o Governo Federal deve, por meio de maior destinação de verbas, investir na criação de centros de transplante ao longo de todo o território nacional, com o fito de ampliar a infraestrutura médica de todos os estados brasileiros, para que, assim, estejam aptos a favorecer esse ato de solidariedade no país.